quarta-feira , 20 maio 2026
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Sem Fome de Nada

DANIEL TEIXEIRA

Nietzsche, no século XIX, inventou um personagem chamado o último homem.
Não era o último sobrevivente. Era o último no sentido de que não sobrou mais nada para querer.
Esse homem não sofre. Não cria. Não se revolta. Olha o mundo desabar com a expressão de quem vê chuva numa tarde de domingo — e muda de canal.
Nietzsche estava descrevendo o futuro.
O futuro éramos nós.
E olha que ele nem tinha visto o algoritmo.
O algoritmo é o novo Deus. Invisível, onisciente e dedicado a entregar exatamente o que queremos ouvir.
Não precisa censurar. Basta afastar o que incomoda e mostrar apenas o que agrada.
A bolha não tem muros. Tem espelhos.
Do lado de fora, o mundo pega fogo. Há guerras, colapso, gente passando fome, famílias adoecendo e pessoas cada vez mais sozinhas.
Mas lá dentro está quentinho, o feed é bonito, e o problema mais urgente é escolher qual série começar.
Raul Seixas descreveu esse homem antes de ele existir em escala industrial: sentado no trono de um apartamento, boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar.
Era profecia.
Virou retrato de família.
Virou meta de vida.
Criamos uma civilização do conforto e nos espantamos com a geração que ela produziu.
A geração Z não é apática por maldade nem por preguiça. Ela foi criada num mundo que prometeu entretenimento infinito, conforto imediato e nenhuma disposição para enfrentar dificuldades.
E agora, como se faltasse alguma coisa, criamos uma era em que até o apetite virou defeito a ser corrigido.
Ozempic, Mounjaro e toda a família de injeções do bem-estar reduzem a fome, o impulso, a vontade.
O problema não está apenas no remédio, que tem indicação médica real e pode ser necessário. Está também na fantasia cultural que ele passou a representar: não sentir, não desejar, não exagerar, não transbordar.
A apatia vendida como autocontrole.
O homem moderno conseguiu eliminar o incômodo.
E junto foi o desejo, o vizinho, a praça, o outro, a capacidade de se indignar por mais de 48 horas.
Ficamos sem fome.
De comida, sim — o remédio resolve isso.
Mas também sem fome de mundo, de gente, de causa, de segunda-feira com propósito.
Sem fome de nada.
No Instagram ficou a versão de nós que não existe: a viagem ótima na foto e sofrível na vida, o prato bonito que esfriou enquanto era fotografado, o sorriso que durou exatamente o tempo do clique.
Viramos mendigos de curtida.
Trocamos o abraço pelo like e achamos que saímos no lucro.
Não saímos.
Saímos mais leves e mais vazios.
Pertencemos porque estamos num grupo de WhatsApp.
Estamos informados porque o feed não para.
Estamos conectados porque o sinal está ótimo.
Mas a hiperconexão produziu isolamento.
Pessoas sozinhas dentro de multidões digitais, trocando informação o tempo todo sem dizer nada de verdade a ninguém.
E ficamos frios.
Tão frios que uma tragédia humana real e uma série que maratonamos no fim de semana chegam com o mesmo peso, a mesma fonte, o mesmo volume.
Crianças morrendo num conflito distante e a virada final da série disputam a mesma atenção — e são igualmente esquecidas quando chega o próximo escândalo.
A indignação hoje tem prazo de validade menor que story no Instagram.
E não é covardia. Nunca foi. É algo mais fundo e mais difícil de curar — é apatia, é conformismo, é a descrença silenciosa de quem foi se convencendo, ao longo do tempo, de que reagir não adianta, que manifestar não muda, que se indignar cansa sem resultado. A desesperança não chega de repente. Ela vai chegando, devagar, até o dia em que a pessoa olha para uma injustiça clara e não sente nada. Ou sente, por dois minutos, e passa.
Nietzsche previu no livro. Raul no palco. A conclusão é a mesma: nós estamos sumindo.
Não de repente.
Devagarinho.
Scroll por scroll.
Like por like.
Episódio por episódio.
Ninguém precisa virar herói.
Precisa apenas parar de fingir que não está vendo.
Sair do espelho e olhar pela janela.
Ligar para alguém sem motivo.
Ajudar sem filmar.
Abraçar com vontade.
Discordar olho no olho.
Rir numa mesa com gente de verdade ao redor.
Protestar com o corpo presente, não com o dedo no vidro.
Indignar-se de verdade — com a indignação que não passa em 48 horas, que vira conversa, gesto e presença.
Nós não estamos condenados a ser o último homem.
Mas precisamos decidir isso agora — antes que o algoritmo decida por nós, antes que a próxima notificação chegue, antes que mais um episódio comece sozinho.
A vida não está no feed.
Nunca esteve.
Está do lado de fora — barulhenta, imperfeita, sem filtro e sem edição.
É exatamente por isso que ela ainda vale a pena.

Daniel Teixeira é advogado, empresário e presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, seccional Mato Grosso (Abrasel-MT).

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