quarta-feira , 25 fevereiro 2026
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Irã se prepara para possível guerra com os EUA e avalia formas de sobrevivência do regime

Enquanto os EUA posicionam o maior destacamento militar em mais de duas décadas no Oriente Médio, o Irã se divide entre a busca de resolução dos atritos por via diplomática e uma preparação apressada de suas bases e instalações nucleares para um eventual conflito.

Nesta terça-feira (24), a Guarda Revolucionária iraniana realizou exercícios militares no sul do país e nas ilhas do Golfo Pérsico. Foram mobilizados mísseis, artilharia, drones, forças especiais e veículos blindados, segundo a TV estatal iraniana. Mas essa é apenas uma das ações tomadas nos últimos dias, desde que a pressão cresceu na região: na semana passada, Teerã realizou exercícios militares no Golfo de Omã com a Rússia, um de seus principais aliados.

Nesse contexto de intensificação militar, o regime iraniano tem buscado se aproximar de Rússia e China, que evitam se envolver diretamente na situação. Após o anúncio de um acordo secreto com Moscou para fornecimento de milhares de equipamentos militares, a agência de notícias Reuters informou nesta terça-feira que o país persa também estaria perto de fechar um pacto com Pequim para a compra de mísseis de cruzeiro antinavio que poderiam abrir um novo cenário na região.

A preparação militar ocorre em meio à falta de resultados significativos entre negociadores iranianos e americanos. De acordo com o principal diplomata do Irã, Abbas Araghchi, os dois lados concordaram com um conjunto de “princípios orientadores”, no entanto, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, disse que o Irã não reconheceu os pontos inegociáveis estabelecidos pelo presidente americano, Donald Trump: que o Irã reveja seu programa nuclear, interrompa a produção de mísseis balísticos e cesse o apoio a grupos terroristas na região.

Teerã tem afirmado que, em caso de um ataque dos EUA, as consequências não se limitariam a um único país e que a responsabilidade recairia sobre aqueles que iniciassem ou apoiassem tal ataque, incluindo aliados regionais dos americanos, como Israel.

Como o Irã está se mobilizando para um eventual conflito

A ameaça de conflito tem gerado mudanças na estrutura de poder interna do regime.

Enquanto o líder supremo, Ali Khamenei, mantém certo distanciamento da vida pública, o Conselho Supremo de Segurança Nacional, chefiado por Ali Larijani, passou a tomar a frente no atual momento de crise. Segundo o jornal The New York Times, Khamenei incumbiu Larijani de “conduzir o país” durante os protestos iniciados em dezembro e ele estaria efetivamente governando o país.

Em entrevista à emissora catari Al Jazeera, neste mês, o aliado poderoso de Khamenei disse que o país estaria preparado para a guerra.

“Definitivamente, somos mais fortes do que antes. Nos preparamos nos últimos sete, oito meses. Identificamos nossas fraquezas e as corrigimos. Não buscamos a guerra e não a iniciaremos. Mas, se nos forçarem a isso, responderemos”, declarou na ocasião.

Além dessa movimentação no alto escalão, o regime criou uma nova pasta para lidar com o atual cenário de instabilidade: o Conselho de Defesa, focado em tempos de guerra. O veterano militar e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) Ali Shamkhani, que sobreviveu a um ataque israelense na Guerra dos Doze Dias de junho do ano passado, foi escolhido para assumir o papel.

Segundo um relatório do think tank americano Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), desde aquela troca de agressões, lideranças próximas de Khamenei têm buscado uma reestruturação no regime entre figuras linhas-duras, moderados e pragmáticos, o que inclui Larijani.

Vali Nasr, especialista em Irã na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, explicou ao Times que essa redistribuição do poder sinaliza que o líder supremo iraniano espera ser um “mártir”.

“Ele está distribuindo o poder e preparando o Estado para o próximo grande evento, tanto a secessão quanto a guerra, ciente de que a secessão pode ser uma consequência da guerra”, avaliou o especialista.

Em relação à preparação operacional, as autoridades iranianas passaram os meses seguintes ao conflito com Israel realizando reformas nas instalações de mísseis e bases aéreas que foram gravemente danificadas pelos ataques.

Três membros da Guarda Revolucionária e quatro altos funcionários iranianos disseram ao Times que o país já posicionou lançadores de mísseis balísticos ao longo de sua fronteira oeste com o Iraque – perto o suficiente para atingir Israel – e ao longo da costa sul no Golfo Pérsico, mirando bases militares americanas e outros alvos na região.

Ainda na tarefa de reconstrução de suas capacidades de defesa, uma investigação do Financial Times mostrou que o Irã buscou a Rússia para firmar um acordo para comprar milhares de sistemas portáteis de defesa aérea, num pacto avaliado em cerca de 500 milhões de euros. Segundo o jornal britânico, Moscou teria se comprometido a enviar, ao longo de três anos, pelo menos 500 sistemas de defesa aérea portátil “Verba” e 2.500 mísseis compatíveis com esse sistema.

Na mesma linha, a Reuters informou que o Irã estaria próximo de fechar um acordo com a China para comprar mísseis de cruzeiro antinavio supersônicos CM-302. A reportagem citou seis pessoas com conhecimento sobre o acordo, que já estaria em fase final, após o ataque dos EUA ao Irã no ano passado ter acelerado as tratativas. Os mísseis negociados, segundo a Reuters, poderiam aumentar a capacidade de ataque iraniana e representariam ameaça às forças navais dos EUA que estão na região. Ainda não há, porém, uma data de entrega acordada e o Ministério das Relações Exteriores da China declarou não ter conhecimento dessas negociações.

Negociações podem ser “tábua de salvação” para o regime iraniano

As negociações em curso entre autoridades iranianas e americanas são vistas como a melhor opção para o regime dos aiatolás.

O presidente americano, Donald Trump, deu um prazo de duas semanas – que deve expirar na próxima semana – para o regime decidir o seu futuro. A oportunidade, se acatada integralmente por Teerã, pode livrar o país de um ataque militar e aliviar as severas sanções que têm prejudicado a economia iraniana.

No entanto, ao mesmo tempo em que surge como uma “tábua de salvação”, um eventual acordo com os EUA envolve concessões fundamentais para o poder de dissuasão do regime, em especial seu programa nuclear que é visto como uma ameaça para seus inimigos.

Uma análise do think tank americano Atlantic Council pondera que, considerando que Khamenei passou mais de 36 anos cultivando um legado de desafio às potências ocidentais, uma mudança de postura nesse nível seria considerada um sacrifício que o regime não estaria disposto a aceitar.

Na hipótese de conseguir infligir danos significativos nas forças americanas, o Irã manterá sua mensagem de resistência, sem entrar em colapso, consolidando assim sua posição tanto interna quanto internacionalmente.

O analista militar da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, avalia que, em caso de uma resposta contundente de Teerã – por meio de baixas não previstas pelos militares americanos – a situação pode se agravar no Oriente Médio e gerar um conflito mais amplo.

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