O agora ex-presidente do INSS, Gilberto Waller Junior, culpou o Ministério da Previdência Social pela longa fila de espera por benefícios, após ser demitido nesta segunda-feira (13). A troca de comando no órgão ocorreu por pressão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reduzir o número de pedidos acumulados – uma promessa de campanha não cumprida e já nas proximidades da próxima eleição em que pretende se reeleger.
Waller diz que a maior parte dos casos em atraso depende de perícia médica, atribuição direta do ministério, e não da estrutura do INSS.
“Se for a fila, quem teria quer ser exonerado não era ninguém do INSS. A maioria dos que esperam há mais de 45 dias depende de perícia médica, que é de responsabilidade do ministério”, afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo publicada à noite.
Gilberto Waller Junior rebateu a posição oficial do Ministério da Previdência de que a mudança na presidência seria uma forma de “acelerar a análise de benefícios”, e afirmou que sua gestão já havia reduzido significativamente o tempo de espera. No total, a fila soma cerca de 2,7 milhões de pedidos até março, número ainda considerado elevado apesar de uma queda de aproximadamente 300 mil solicitações no período.
Dados do próprio INSS indicam que mais de 821 mil pessoas aguardam há mais de 45 dias, sendo a maioria dependente de perícia médica.
“Estou tranquilo, saio de consciência tranquila. Hoje, a fila é menor do que quando assumi, em abril de 2025, mesmo com aumento de requerimentos por mês. E deixo o órgão sem problemas no sistema”, declarou.
Segundo ele, o INSS registrou um recorde histórico de concessões em março, com 890 mil benefícios liberados. No mesmo período, foram concluídas análises de 1,6 milhão de pedidos.
A culpa do próprio ministério pela fila também ocorre por falhas tecnológicas, segundo uma nota técnica do INSS, que responsabiliza a Dataprev por “incidentes sistêmicos” que teriam causado impacto direto na produtividade. Essas ocorrências teriam gerado um prejuízo de mais de R$ 233 milhões aos cofres públicos entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2026.
Segundo a análise, instabilidades e indisponibilidades nos sistemas informatizados afetaram diretamente o funcionamento das Centrais de Análise de Benefícios, responsáveis pelo processamento de pedidos previdenciários. O texto afirma que os problemas “demonstram de forma inequívoca” impactos relevantes e recorrentes na capacidade produtiva do INSS, incluindo mais de 1,7 milhão de pontos de abatimento sistêmico e cerca de 2,9 milhões de horas de trabalho prejudicadas.
Waller também lembrou que não foi comunicado diretamente pelo ministro da Previdência nem pelo presidente da República sobre sua demissão. A comunicação foi feita pelo secretário-executivo da pasta, enquanto o único contato direto citado foi do advogado-geral da União, Jorge Messias, responsável por sua indicação ao cargo no ano anterior.
O agora ex-presidente foi nomeado para o comando do INSS em abril do ano passado no lugar do então presidente Alessandro Stefanutto, demitido por Lula após pressão de alas do governo por suspeita de envolvimento no escândalo descoberto pela Polícia Federal nas investigações que levaram à deflagração da operação Sem Desconto. As apurações apontam que ele recebia propina do esquema criminoso que vitimou aposentados e pensionistas.
Medidas para reduzir a fila
Em nota, o Ministério da Previdência atribuiu a redução recente da fila a medidas adotadas pela própria pasta, como mutirões, contratação de 500 peritos, uso de telemedicina e implementação de novos sistemas de análise. No começo deste ano, o INSS retomou o pagamento do bônus de desempenho a servidores como estratégia para reduzir a fila de análise de benefícios, que somava quase 3 milhões de pedidos em todo o país.
A medida fez parte da nova versão do Programa de Gerenciamento de Benefícios, que criou um cadastro nacional unificado para processos como aposentadorias, auxílios-doença e reavaliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos a partir de 65 anos e pessoas com deficiência de baixa renda.
A nova portaria também reforçou as ações de pente-fino, com reavaliação de benefícios assistenciais e previdenciários já concedidos para verificar se os critérios continuam sendo cumpridos. A meta era reduzir o estoque de requerimentos represados há mais de 45 dias, prazo a partir do qual o INSS passa a pagar correção monetária, aumentando o custo para a Previdência.
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