Com o petróleo oscilando próximo de US$ 100 devido à crise no Oriente Médio, a inflação pressionando e a escalada de gastos do governo, o cenário econômico brasileiro tem se tornado incerto.
Por enquanto, o país demonstra ter proteções contra a chamada “estagflação” – situação de inflação elevada combinada com baixo crescimento. Contudo, essas defesas estão perdendo força devido à expansão fiscal do governo Lula.
A escalada de tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada no final de fevereiro, elevou o petróleo Brent para acima de US$ 100 por barril nas últimas semanas. Analistas divergem sobre a duração do movimento: parte vê efeito transitório, enquanto outros apontam risco mais persistente.
Segundo a Allianz Research, um bloqueio do Estreito de Ormuz (passagem estratégica entre o Irã e Omã, por onde passa grande parte do petróleo mundial) por seis semanas elevaria a inflação dos mercados emergentes em 0,8 a 1,0 ponto percentual. O bloqueio, no entanto, já supera esse período.
Para o Brasil, isso se traduz em gasolina mais cara, frete mais caro e inflação de alimentos. Quanto à alta dos combustíveis, enquanto a gasolina afeta principalmente o consumidor urbano, o diesel pressiona toda a cadeia de logística e alimentos.
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Três proteções brasileiras contra a crise global
Mesmo diante do cenário externo, o Brasil apresenta fatores que ajudam a amortecer choques. Analistas do Itaú apontam que a sensibilidade do dólar global ao petróleo diminuiu desde 2022, com os Estados Unidos se tornando exportadores líquidos da commodity. Isso reduziu a correlação histórica entre alta do petróleo e valorização do dólar.
Diferente de crises passadas, o Brasil também possui uma “gordura” institucional e comercial. Como o país exporta mais petróleo e derivados do que importa, a alta dos preços internacionais melhora a relação de preços entre as exportações e importações brasileiras.
Assim, o Brasil possui três fatores de proteção que o diferenciam de outros emergentes:
- Exportação líquida de petróleo: Como exportador, o país ganha quando os preços sobem, reduzindo pressões cambiais. A Allianz Trade classifica o Brasil como “estruturalmente resiliente” por essa característica.<br>
- Reservas cambiais robustas: Em fevereiro, o Banco Central mantinha US$ 371 bilhões em reservas cambiais. Esse volume ajuda a conter movimentos abruptos no câmbio.<br>
- Juro real elevado: O Brasil oferece um dos maiores retornos reais do mundo: 9,5% ao ano, atrás apenas da Turquia, segundo a Lev Intelligence. Isso favorece a atração de capital, contribuindo para estabilidade financeira.
Para fontes ouvidas pela reportagem, essa combinação amplia a capacidade de o país enfrentar choques externos em comparação com crises anteriores. Ainda assim, há a avaliação de que os altos gastos do governo podem reduzir parte dessa margem de proteção, ao exigir uma política monetária mais restritiva.
Banco Central enfrenta pressão e risco de estagflação
O Banco Central começou a reduzir juros em março, mas apenas 0,25 ponto percentual. O mercado já percebeu que os cortes serão pequenos, porque a inflação não está caindo como esperado.
Mas esse cenário de cortes cautelosos assume um ambiente estável: choques de oferta, como o aumento do petróleo, elevam o risco de estagflação ao pressionar simultaneamente inflação e atividade econômica.
Para José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, qualquer pressão inflacionária adicional pode forçar o Banco Central a elevar juros novamente, desacelerando a atividade econômica.
A questão central é a distinção entre um choque transitório ou permanente. Segundo Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset, “ainda é muito cedo para afirmar que estamos a caminho da estagflação, pois depende dessa distinção e das respostas de política monetária que o Banco Central irá determinar em cada caso.”
Lições históricas e expansão fiscal
Analistas apontam que episódios anteriores de estagflação, como nos anos 1970, pioraram quando os juros foram mantidos baixos por tempo demais, o que fez as expectativas de inflação saírem do controle. Atualmente, os bancos centrais possuem maior experiência para lidar com esses cenários, embora o risco permaneça.
No Brasil, o governo Lula tenta compensar o aperto monetário com expansão fiscal. Para 2026, a equipe econômica projeta um impulso de gastos sociais que deve adicionar, segundo cálculos do Itaú, 0,4 ponto percentual ao crescimento do PIB.
Esse estímulo virá de quatro frentes: aumento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 650, redução da fila do INSS, ampliação do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e expansão do Pé-de-Meia – programa em que o governo federal paga estudantes para permanecerem matriculados no ensino médio.
Alto gasto público na gestão Lula pressiona contas e limita margem fiscal
Enquanto o Banco Central tenta controlar a inflação, o governo resiste a reduzir gastos. O Itaú aponta que para estabilizar a dívida bruta em 87,2% do PIB até 2027, o Brasil precisa de um ajuste fiscal de quatro pontos percentuais, o que vai na contramão da política econômica da gestão Lula.
O Brasil gasta mais do que arrecada (excluindo juros) enquanto juros reais permanecem altos. É uma dinâmica insustentável, acentuada pelo aumento de gastos obrigatórios, como benefícios sociais.
A alta do petróleo pode gerar alívio temporário nas contas externas, mas analistas apontam que esse efeito tende a ser limitado caso os preços recuem.
O Brasil já viveu isso em 2014-2015, com o petróleo em queda, inflação em alta e gastos muito elevados do governo. O resultado foi recessão profunda, com desemprego que atingiu 13,9% em março de 2017.
Agora o petróleo sobe, mas o governo continua gastando. A dinâmica é diferente, mas os riscos são parecidos. “No caso brasileiro, a maior dificuldade é que o governo não consegue absorver esse choque, por exemplo, por meio de alguma isenção fiscal, pois a política fiscal está no limite”, diz Rodrigo Marques.
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