O Reino Unido foi na contramão de seus aliados europeus e reduziu investimentos em defesa no ano passado, em um momento em que a disputa com a Argentina pelas Ilhas Malvinas volta a ganhar temperatura.
Um estudo anual do think tank sueco Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), divulgado nesta segunda-feira (27), mostrou que o Reino Unido caiu do quarto para o sexto lugar entre os países que mais gastam com defesa. Foram direcionados US$ 89 bilhões para essa área em 2025, uma redução de 2% em comparação com 2024. Os investimentos em defesa britânicos representaram 2,4% do PIB do país no ano passado.
Entre os principais aliados do Reino Unido, os Estados Unidos, que novamente foram o país que mais gastou com defesa (US$ 954 bilhões em 2025), também tiveram queda, com investimentos 7,5% menores em defesa.
Porém, os pesquisadores do Sipri enfatizaram que essa redução se deveu ao fato de que nenhuma nova ajuda militar direta à Ucrânia foi aprovada durante o ano passado e que os gastos americanos na área certamente voltarão a crescer devido à guerra contra o Irã.
Enquanto os gastos militares do Reino Unido sofreram redução em 2025, Alemanha (aumento de 24%), França (1,5%), Itália (20%), Polônia (23%) e Espanha (50%), aliados na Otan, direcionaram mais recursos para a área.
Os principais adversários geopolíticos do Ocidente hoje, China e Rússia, aumentaram os investimentos em defesa em 7,4% e 5,9% em 2025, segundo o Sipri.
A resistência do governo do premiê trabalhista Keir Starmer em aumentar os gastos militares gera preocupação até entre aliados, como George Robertson, parlamentar da Câmara dos Lordes, ex-secretário da Defesa britânico e ex-secretário-geral da Otan.
“O orçamento de programas sociais do Reino Unido hoje é cinco vezes maior do que o que gastamos com defesa”, afirmou Robertson em um discurso recente, segundo a emissora Sky News.
“Estamos certos de que esta é a prioridade correta, colocando em risco a segurança futura da população enquanto mantemos uma conta de bem-estar social cada vez mais insustentável?”, questionou o político trabalhista.
Uma reportagem publicada em fevereiro pela emissora britânica BBC mostrou que o governo Starmer pretende elevar os gastos com defesa para 3% do PIB até 2029, ritmo considerado lento por especialistas.
“Não podemos fazer tudo o que gostaríamos, na velocidade que gostaríamos, dentro do orçamento que definimos”, afirmou ao Parlamento em janeiro Richard Knighton, chefe do Estado-Maior da Defesa do Reino Unido.
Um relatório encomendado pelo Parlamento do Reino Unido, publicado na edição de março/abril de 2025 da revista especializada Warship World, mostrou que a Marinha Real (RN, na sigla em inglês) britânica, outrora a mais poderosa força militar naval do mundo, foi superada pela Força de Autodefesa Marítima do Japão (JMSDF).
De acordo com o relatório, a JMSDF possuía à época 150 navios, um efetivo de 50,8 mil membros e 346 aeronaves. Já a RN tinha 79 navios, 31,9 mil integrantes e 160 aeronaves.
“A última escolta da RN (fragata/contratorpedeiro) a ser entregue foi a Duncan, em 2013. Entre 2013 e 2024, a JMSDF recebeu 12 contratorpedeiros e fragatas. A RN possui 14 escoltas em serviço. A JMSDF possui 46”, destacou o relatório, assinado pelo especialista Christopher Cope.
Uma pesquisa realizada pelo instituto YouGov no ano passado mostrou que apenas 37% dos britânicos acreditam que suas forças armadas se sairiam bem caso ocorra a Terceira Guerra Mundial.
“Se eles se sentem ingleses, que voltem ao seu país”, diz vice de Milei sobre habitantes das Malvinas
Na semana passada, a agência Reuters publicou uma reportagem que informou que, entre as medidas cogitadas pelos EUA para responder a aliados na Otan que não ajudaram na reabertura do Estreito de Ormuz na guerra com o Irã, estaria reavaliar o apoio diplomático às antigas “possessões imperiais” europeias, como as Ilhas Malvinas, um território ultramarino britânico que motivou uma guerra com a Argentina nos anos 1980 e é reivindicado por Buenos Aires até hoje.
A notícia animou integrantes do governo do presidente argentino, Javier Milei, cuja vice, Victoria Villarruel, disse que “os kelpers [termo pejorativo usado na Argentina para descrever a população do arquipélago] são ingleses que vivem em território argentino”.
“Se eles se sentem ingleses, devem retornar milhares de quilômetros de distância, até onde fica seu país”, acrescentou a vice-presidente, que sugeriu que a opinião da população das ilhas sobre a disputa não deve ser levada em conta. Em um referendo realizado em 2013 com habitantes das Malvinas, 99,8% dos moradores negaram a incorporação do arquipélago pela Argentina.
“Hoje, mais do que nunca, as Malvinas são argentinas. A discussão sobre a soberania de nossas ilhas é entre Estados; portanto, o Reino Unido deve discutir bilateralmente com a Argentina a reivindicação que mantemos por razões jurídicas, históricas e geográficas”, disse Villarruel.
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Ainda que menos enfático, Milei também realçou o discurso de reinvindicação das Malvinas após a publicação da reportagem da Reuters. “Pela história, por direito e por convicção, as Malvinas são argentinas”, disse o presidente.
Entretanto, existem três fatores que tranquilizam os britânicos na disputa com os argentinos pelas Malvinas. O primeiro é que Milei tem enfatizado que quer uma solução diplomática para a divergência, não militar.
O segundo é que a Argentina gasta bem menos em defesa do que os britânicos: segundo o relatório do Sipri, Buenos Aires investiu apenas US$ 3,87 bilhões na área em 2025, somente 0,6% do PIB.
O terceiro ponto é que, apesar da afinidade entre Milei e o presidente americano, Donald Trump, Washington não pretende ajudar Buenos Aires militarmente nessa disputa.
Na semana passada, um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que os Estados Unidos reconhecem a “administração de facto” do arquipélago pelo Reino Unido e mantêm uma posição de “neutralidade” nas reivindicações dos dois lados pelas Malvinas.
Pouca atenção britânica à defesa gera reflexos até no Brasil, diz especialista
Em entrevista à Gazeta do Povo, Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), disse não acreditar que haverá um conflito Argentina x Reino Unido pelas Malvinas porque, além da disposição de Milei de resolver o assunto pela via diplomática, a Constituição argentina pós-ditadura militar também codifica que o assunto Malvinas seja abordado de forma pacífica.
O especialista afirmou que a estratégia de utilizar o arquipélago pode ser um “blefe” de Trump para forçar o Reino Unido a aderir “incondicionalmente” às operações militares americanas.
“Quando os Estados Unidos realizam uma ação no Oriente Médio, é da visão desse governo que os europeus deveriam estar se movendo para apoiar os americanos, mesmo que seja uma guerra de procuração ou de escolha”, disse Teixeira Moita.
Na questão da falta de investimentos britânicos em defesa, o especialista afirmou que há reflexos até no Brasil: por exemplo, o navio de guerra HMS Ocean, comissionado na Marinha do Brasil como Atlântico, e outra aquisição recente, o HMS Bulwark, foram comprados dos britânicos com menos de 20 anos de uso; na área de defesa, são considerados navios novos.
“Isso tem sido palco de debates no Parlamento britânico: o que se fala é que estão construindo para vender para os outros, não para manter, porque o orçamento de defesa é exíguo”, disse Teixeira Moita.
Outros fatos lembrados pelo especialista também evidenciam a falta de rumo da política de defesa britânica. O Exército desenvolveu um novo blindado para a tropa de infantaria mecanizada, o Ajax, que tem tantos problemas que as forças do Reino Unido pararam de desativar os antigos e decidiram acelerar um programa para substituir o próprio Ajax.
“O blindado tem problemas até de trepidação; em testes, os soldados não conseguiram desembarcar porque ficaram tão tontos que caíram no chão. Parece algo do Monty Python, mas é real”, afirmou Teixeira Moita, que lembrou também de problemas na aquisição e desenvolvimento de caças, o que obrigou os britânicos a recorrerem ao americano F-35, que é muito caro para o orçamento de defesa do Reino Unido, limitando a quantidade comprada.
“No caso britânico, tanto o Partido Trabalhista quanto o Partido Conservador sempre fizeram grandes declarações sobre defesa, mas se apoiaram muito no ‘relacionamento especial’ [special relationship] com os Estados Unidos, acreditando que o Reino Unido, ao contrário do resto da Europa, não seria percebido como um fardo pelos americanos pela grande cooperação em defesa, inteligência e segurança. Só que o governo Trump veio para mudar tudo isso”, destacou.
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