quinta-feira , 14 maio 2026
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O teste de resiliência da gestão em tempos de guerra

JANGUIÊ DINIZ

O cenário geopolítico global, marcado pelos recentes e graves desdobramentos dos conflitos no Oriente Médio, não é apenas uma sucessão de manchetes distantes. Para quem carrega a responsabilidade de gerir negócios e gerar empregos, cada movimentação no tabuleiro internacional reverbera diretamente na realidade do nosso mercado.

Não há como ignorar: a economia mundial é um organismo vivo e, quando um órgão vital sofre, todo o sistema sente o choque. A interconectividade das cadeias de suprimentos e a volatilidade instantânea dos mercados financeiros fazem com que uma faísca a milhares de quilômetros de distância se transforme, em poucas horas, em uma pressão real sobre o custo de capital e a confiança do investidor aqui no Brasil.

Estamos atravessando o que chamo de o verdadeiro teste de resiliência do empreendedorismo. Em mares calmos, qualquer embarcação mantém o curso. Contudo, é no olho do furacão que os comandantes de fato se provam. A guerra traz consigo uma nuvem de incertezas que afeta o preço do petróleo (o combustível que movimenta nossa logística), pressiona o câmbio e desestabiliza o custo das commodities.

O impacto no bolso do consumidor brasileiro e na margem de lucro das nossas empresas é uma consequência matemática, não uma hipótese. É preciso compreender que o cenário de “normalidade” é uma ilusão temporária; o empreendedorismo real é, por definição, a gestão do imprevisto e a capacidade de manter a lucidez quando o cenário externo convida ao desespero.

Diante da instabilidade, a pior postura que um líder pode adotar é a da inércia ou do lamento. O mercado é pragmático e não tem espaço para o pessimismo paralisante. O momento exige o que sempre defendi: visão de águia para enxergar além do nevoeiro e pés no chão para manter a operação blindada. É hora de trocar o “feeling” pela precisão dos dados, a passividade pela agilidade estratégica e a dependência vulnerável pela diversificação inteligente.

O líder que ignora a análise de cenários e se recusa a adaptar seu modelo de negócio aos novos ventos da geopolítica está, na prática, assinando a certidão de óbito da sua competitividade. A inteligência estratégica agora deve ser uma função diária, e não um exercício de planejamento anual.

O empreendedorismo no Brasil sempre foi um exercício de superação, mas agora ele se torna uma prova de maestria na gestão. Precisamos entender que a antifragilidade não é apenas sobreviver ao caos, mas aprender a se fortalecer através dele. A teoria de Nassim Taleb se aplica perfeitamente aqui: o sistema antifrágil se beneficia do estresse, da desordem e da volatilidade.

Se o mundo está incerto, nossa convicção na eficiência e na disciplina precisa ser inabalável. Isso significa que as crises não devem ser vistas apenas como ameaças, mas como catalisadores de uma eficiência que, em tempos de bonança, costumamos negligenciar. É no aperto das margens que descobrimos as gorduras que podem ser cortadas e os processos que podem ser otimizados pela tecnologia.

Para converter essa mentalidade em resultados práticos, o caminho exige que o empreendedor priorize a liquidez e a preservação do caixa, evitando o endividamento em moedas voláteis e garantindo fôlego para aproveitar as fatias de mercado deixadas por quem não se preparou.

O caixa, em tempos de guerra, é mais do que reserva financeira, é poder de manobra. Ter liquidez permite que você mantenha seus investimentos estratégicos enquanto a concorrência está paralisada pelo medo. Além disso, a gestão de estoques e a renegociação de contratos logísticos devem ser tratadas com prioridade absoluta para mitigar os efeitos da inflação de custos que o conflito internacional impõe.

É fundamental estabelecer uma cultura de monitoramento em tempo real, onde o ajuste de rotas e custos seja imediato, transformando a agilidade operacional na sua maior defesa. Isso requer uma infraestrutura de dados que permita ao gestor enxergar a variação da margem de contribuição de cada produto ou serviço quase que instantaneamente.

O empreendedor deve atuar como um filtro de serenidade, blindando a equipe do pânico externo e canalizando toda a energia na excelência da execução diária. O capital humano é o ativo mais sensível à instabilidade, isso significa que, se a liderança demonstra vacilo, a operação inteira perde o foco. O papel do líder é ser o farol em meio à névoa, mantendo a tropa focada no que é controlável, isto é, na qualidade do serviço e na satisfação do cliente.

A tragédia humana da guerra é imensurável, mas, do ponto de vista da gestão, ela nos convoca a uma excelência sem precedentes. Quem se acomoda ou espera o vento mudar de direção acaba naufragando. Quem ajusta as velas com rapidez e mantém o foco no resultado é quem alcançará o porto seguro.

No final do dia, o mercado não recompensa quem teve sorte, mas sim quem teve a coragem de olhar para o caos e enxergar a oportunidade de se reinventar. O futuro, mais do que nunca, pertence aos que não se curvam e transformam a crise em um degrau necessário para a evolução e para a construção de um legado inabalável.

Janguiê Diniz – Fundador e Presidente do Conselho de Administração do grupo Ser Educacional, Fundador da JD Business Academy, Presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo e da ABMES – Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior

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