Em meio à crise provocada pela descoberta da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, eleitores indecisos têm avaliado como não convincentes as tentativas de justificativa do parlamentar. Decisivo para o resultado das eleições deste ano, o grupo também demonstra certa insatisfação em relação a medidas anunciadas pelo governo Lula, como o Desenrola 2.0, descritas como eleitoreiras.
Alvo de disputas voto a voto entre esquerda e direita, representantes do segmento — indecisos e moradores de colégios eleitorais estratégicos — têm sido monitorados pelo GLOBO quando um fato relevante ocorre na política. Desde julho do ano passado, eles já se posicionaram sobre o tarifaço imposto ao Brasil pelos Estados Unidos e a resposta do governo à crise, além da PEC da Blindagem, da anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e da escolha de um sucessor do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso após condenação por tentativa de golpe de Estado.
No mês passado, o grupo também opinou sobre os reflexos do escândalo do Master sobre políticos e o impacto da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Ao longo dos últimos dez meses, eles sinalizam rejeição a nomes ligados à família Bolsonaro, mas também se incomodam com gestos do governo que buscam recuperar a popularidade do presidente Lula.
Justificativas falhas
Nesta rodada, os oito eleitores acompanhados pela reportagem relatam sua percepção sobre o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para fazer um filme sobre o pai. Desde a divulgação dos áudios pelo site Intercept Brasil, o senador já deu diferentes versões sobre a aproximação com o banqueiro, a quem chegou a visitar enquanto cumpria prisão domiciliar antes de ser preso definitivamente.
De Salvador, o jornalista Vinícius Portugal desconfia do destino dos R$ 61 milhões que foram repassados para o filme “Dark horse”:
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— (A resposta dele) não é convincente até que se prove que esse dinheiro, de fato, foi para o orçamento do filme. Ainda assim, a imagem de Flávio já está rachada, porque foi provado que ele já sabia de toda a operação contra Vorcaro e, mesmo assim, seguiu tratando-o como um grande amigo.
A relação existente entre os dois, até então desconhecida, também provocou incômodo na psicóloga Laís Barreiros, outra moradora da capital baiana. Ela afirma ser contrária a “todo tipo de proximidade entre figuras públicas e interesses privados quando existem suspeitas e pouca transparência envolvida”.
Já a administradora Fabiana Gomes, de Belo Horizonte, critica o fato de Flávio ter apresentado diferentes justificativas, inclusive a de que foi uma tomada de dinheiro privado.
— Cumpriu o papel de tomar dinheiro público, embora digam que é privado, para resolver questões pessoais como a permanência do irmão nos EUA — avalia Laís, em referência à investigação Polícia Federal (PF) sobre o envio dosa recursos para um fundo administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro e também sobre o esquema de Vorcaro que envolvia fraudes com dinheiro de aposentados.
A reação do presidenciável Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas que publicou um vídeo com críticas a Flávio logo após o episódio, também não passou despercebida. A mineira Lorena Mendes, do município de Manhuaçu, classificou a reação de quem chegou a ser cogitado para a vice do senador como “uma tentativa de se afastar do bolsonarismo para preservar a própria imagem”. O atendente de vendas on-line Vinícius Ribeiro, de São Paulo, viu “oportunismo” de Zema para “ganhar visibilidade e ser alternativa de voto”.
Por outro lado, o balconista carioca Célio Gomes classifica a postura do ex-governador mineiro como “acertada” e afirma que pode “servir de argumento nos debates”. Já o taxista Walter Dias faz coro, mas avalia que o mineiro “não deveria ser expor dessa maneira nesse momento”. A respeito da relação entre Flávio e Vorcaro, Dias enxerga um “investimento superfaturado” no filme sobre Bolsonaro.
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Percepção volátil
A visão crítica do grupo também alcança o governo petista, que recentemente relançou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas. De Niterói (RJ), o advogado Benedicto Patrão acredita que a medida é um capital político para Lula com vistas à eleição. A opinião é compartilhada por Vinícius Portugal:
— É uma pena que esses programas só apareçam em ano eleitoral.
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A mineira Fabiana diz que não se beneficia do programa, mas que ele deveria ser o começo de uma iniciativa mais duradoura:
— A classe média precisa de algo que a faça ultrapassar o endividamento e a coloque como cidadãos possíveis de investirem e construírem possibilidades acima do ordinário.
O paulista Vinícius Ribeiro é um dos beneficiados pelo Desenrola, usado para quitar uma dívida pagando parcelas que “não pesam no bolso”. Para o balconista carioca Célio, um dos trunfos do programa é atrelar seu uso à proibição de jogos de apostas: quem usá-lo não pode aplicar dinheiro em bets.
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Equipes da pré-campanha de Lula avaliam que o programa o ajudou a melhorar a avaliação de governo. Mas isso deve ser visto com cautela, sobretudo entre os eleitores independentes. Pesquisas Quaest mostram que o grupo tem imensa volatilidade sobre a percepção da gestão federal. A última vez em que aprovaram mais o governo do que desaprovaram foi em dezembro de 2024; desde então a curva do levantamento oscilou a cada momento político.
Em maio do ano passado, por exemplo, quando Lula ainda sentia os efeitos da turbulência iniciada em janeiro — na esteira da inflação dos alimentos e do que ficou conhecido como crise do Pix —, apenas 33% dos independentes avalizavam a gestão, contra 61% que a reprovavam. Cinco meses depois, na pesquisa de outubro, a diferença de 28 pontos caiu para apenas dois, com empate técnico entre os que aprovam e desaprovam.
O petista vivia ali um momento de retomada da popularidade com discurso de soberania numa reação ao tarifaço. Na última Quaest, feita após a visita de Lula à Casa Branca, mas antes do caso Flávio-Vorcaro, o saldo negativo voltou a diminuir, com 15 pontos entre desaprovação e aprovação.
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Fabiana Gomes, administradora
“Acho o Desenrola um início, mas a classe média precisa de algo que a faça ultrapassar o endividamento”
Vinícius portugal, jornalista
“O Desenrola 2.0 é interessante, mas é uma pena que esses programas só apareçam em ano eleitoral”
Vinicius Ribeiro, atendente
“Um dos trunfos do novo Desenrola é atrelar seu uso à proibição de jogos de apostas”
Lorena Mendes, estudante
“A imagem do Flávio está comprometida, e esse caso mostra que ele não é confiável”
Célio Gomes, balconista
“As justificativas do Flávio Bolsonaro são um escárnio da cara da população”
Laís Barreiros, psicóloga
“Não acho a explicação do Flávio convincente, ainda mais considerado o contexto”
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