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Fintechs se tornaram “duto do crime organizado” para lavagem de dinheiro do PCC

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) afirmou nesta quinta-feira (28) que fintechs passaram a ser usadas como “duto do crime organizado” para lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), em um esquema bilionário que movimentou recursos do tráfico de drogas e armas e adulteração de combustíveis. As declarações foram feitas durante uma entrevista coletiva sobre a Operação Fluxo Oculto, realizada mais cedo em cinco estados e voltada contra seis empresas do setor financeiro digital suspeitas de ligação com a facção criminosa.

A operação ocorreu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul e é considerada um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado. Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o PCC reorganizou sua estrutura financeira após a ação de 2025 e ampliou o número de fintechs usadas para ocultar dinheiro ilícito.

“Essas fintechs estão sendo exploradas não apenas por essa organização criminosa, como por outros grupos criminosos também, compartilhando os mesmos espaços de fluxo financeiro. Essas empresas têm se tornado um duto do crime organizado para esse fluxo de lavagem do dinheiro ilícito”, afirmou o promotor João Paulo Gabriel.

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O promotor explicou que as investigações identificaram quatro frentes principais envolvendo as fintechs. A primeira delas está relacionada à própria estrutura dessas empresas, que utilizam “contas-bolsões” para esconder a origem e o destino dos recursos, criando camadas de blindagem patrimonial exploradas pelas organizações criminosas.

Essas operações passaram a ser proibidas pelo Banco Central, no ano passado, por reunirem recursos de vários clientes em apenas uma conta para a compensação do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Desde então, uma norma obrigou as fintechs a informarem à Receita Federal quem são os responsáveis e beneficiários pelos recursos.

Segundo a Receita Federal, três das fintechs alvos da operação não prestaram contas à Receita Federal sobre os investimentos, e outras três declararam ter movimentado cerca de R$ 8 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025.

João Paulo Gabriel explicou que, durante a Operação Carbono Oculto, se descobriu que pelo menos três fintechs era utilizadas pelo PCC. Após a ação, a facção se reorganizou e passou a utilizar seis empresas, “o que propiciou criar várias camadas para o fluxo financeiro”, afirmou pontuando que a investigação rastreou a transferência de R$ 4 bilhões das empresas já investigadas para as fintechs alvo da nova operação.

A terceira linha apontada pelo Gaeco envolve a criação de fintechs de fachada em nome de laranjas logo após a operação do ano passado. Segundo João Paulo Gabriel, uma das empresas investigadas teria encerrado contratos antigos e refeito toda a estrutura operacional usando novas companhias fictícias, inclusive com capital social formado por títulos podres, ou seja, sem lastro financeiro comprovado.

O promotor afirmou ainda que o setor apresenta sinais de contaminação pelo crime organizado. “A própria estrutura das fintechs, nesse cenário, mas sem generalizar, está bastante contaminada. Várias já foram alvos de outras operações tanto da Polícia Federal como do Gaeco”, declarou.

Conexão entre facções

E, por fim, o quarto eixo que é considerado pelas autoridades como “talvez o mais preocupante”, por envolver a convergência entre diferentes organizações criminosas dentro do mesmo sistema financeiro. Segundo o Gaeco, as fintechs investigadas eram utilizadas simultaneamente por vários grupos criminosos, compartilhando os mesmos canais de movimentação financeira.

O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou que a Carbono Oculto foi “a maior operação contra organizações criminosas” já realizada no país. Segundo ele, as investigações descobriram “complexas estruturas de cadeias de fundos de investimentos utilizados para lavar dinheiro e ocultar os reais beneficiários”.

“Aquelas pessoas que, do conforto das suas mansões e apartamentos de luxo nas áreas mais nobres do país e do exterior, financiam e ganham com o desespero da população brasileira que é vítima das organizações criminosas”, declarou.

A Receita Federal informou que o avanço das investigações só foi possível após mudanças regulatórias que passaram a exigir mais transparência das fintechs e fundos de investimentos. Segundo Barreirinhas, o Brasil convivia com um “vácuo regulatório e de governança” que permitia a essas empresas atuarem sem as mesmas obrigações impostas aos bancos tradicionais.

As autoridades revelaram ainda que as fintechs investigadas movimentaram R$ 26 bilhões e que parte dessas operações ocorreu com dinheiro em espécie. Segundo a Receita, algumas empresas chegaram a movimentar R$ 1 bilhão em dinheiro vivo e uma delas realizou operações de R$ 1 milhão diretamente em espécie.

Espalhamento da adulteração de combustíveis

A operação desta quinta-feira (28) também avançou sobre o esquema de adulteração de combustíveis pelo PCC descoberto no ano passado durante a Operação Carbono Oculto. O promotor Yuri Fisberg afirmou que, após a ação, empresas ligadas à fraude passaram a abrir novas companhias de fachada em diversos estados do país, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

“Essas empresas simulavam compras milionárias de nafta enquanto o combustível era entregue em postos da capital paulista e da Grande São Paulo”, pontuou.

As investigações também resultaram na identificação e lacração de empresas e terminais terrestres ligados ao esquema. De acordo com o Gaeco, toda a movimentação financeira encontrada apresenta conexão direta com os alvos já investigados na operação anterior e com estruturas ligadas a fundos de investimentos e fintechs utilizadas pelo PCC.

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