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Maio Vermelho e os avanços no diagnóstico e tratamento do câncer de bexiga

RODOLFO GARCIA BORGES

Toda vez que Maio chega, minha agenda de consultas muda de tom. O Maio Vermelho, campanha de conscientização sobre o câncer de bexiga, tem cumprido um papel que nenhuma tecnologia substitui: fazer com que as pessoas prestem atenção ao próprio corpo. E isso, convenhamos, ainda é o maior desafio da urologia oncológica.

Existe um sintoma que aparece em mais de 80% dos casos e que, com uma frequência que ainda me perturba depois de tantos anos de prática, é negligenciado por meses: a hematúria, o sangue na urina. Às vezes visível a olho nu, outras vezes microscópico, detectável apenas em exame de rotina. O problema é que a hematúria não dói. Quando o paciente finalmente senta na minha frente, às vezes já se passaram três ou quatro meses desde o primeiro episódio. Esse atraso tem consequências reais: tumores diagnosticados precocemente, ainda confinados à mucosa da bexiga, têm taxas de sobrevivência em cinco anos superiores a 90%. Quando o diagnóstico chega depois que o tumor invadiu a camada muscular, esse número cai drasticamente. Qualquer episódio de sangue na urina merece investigação, sem exceção.

O câncer de bexiga é o quinto tumor mais comum em homens no Brasil, acometendo-os cerca de quatro vezes mais do que mulheres. O tabagismo responde por aproximadamente metade dos casos, pois os carcinógenos do cigarro, filtrados pelo rim e concentrados na urina, ficam em contato prolongado com o epitélio vesical. A exposição ocupacional a compostos químicos da indústria de borracha, tintas e corantes também eleva o risco de forma considerável. A maioria dos diagnósticos ocorre após os 60 anos, embora o tumor não seja raro em pessoas mais jovens.

No campo diagnóstico, a cistoscopia e a citologia urinária seguem indispensáveis, mas o cenário evoluiu. A cistoscopia com luz azul, ou fluorescência fotodinâmica, passou a integrar minha prática de forma rotineira: após instilação de um composto fotossensibilizante, células tumorais brilham em vermelho sob iluminação azul, permitindo detectar lesões planas de alto grau que seriam invisíveis na cistoscopia convencional. Estudos publicados no European Urology demonstraram reduções de até 40% nas taxas de recidiva com essa técnica. No campo dos biomarcadores urinários, testes moleculares e a biópsia líquida representam horizontes promissores, ainda que complementares à cistoscopia nos protocolos atuais de vigilância.

Cerca de 75% dos cânceres de bexiga são diagnosticados na fase não músculo-invasiva. O tratamento padrão é a ressecção transuretral, seguida de instilações intravesicais de quimioterápicos ou imunoterapia com BCG, o Bacilo de Calmette-Guérin, padrão-ouro para tumores de alto grau há mais de cinco décadas. Quando o tumor invade a musculatura vesical, a cistectomia radical entra em cena. A cirurgia robótica, área à qual dedico grande parte da minha atuação na Oncocenter e que também ensino na residência da UFMT, trouxe refinamentos técnicos importantes a esse procedimento: menor sangramento, recuperação mais rápida e maior precisão nos planos de dissecção. No cenário metastático, a chegada dos inibidores de checkpoint imunológico representou o maior avanço terapêutico dos últimos dez anos, com drogas como pembrolizumabe oferecendo respostas duráveis em pacientes que até então tinham opções muito limitadas.

Seria desonesto encerrar este texto como se tudo estivesse resolvido. O câncer de bexiga ainda tem uma das maiores taxas de recidiva entre os tumores sólidos, ainda diagnosticamos tarde demais em populações com acesso precário à atenção básica e ainda morre gente de uma doença que, detectada no momento certo, era potencialmente curável. O Maio Vermelho não resolve esses problemas sozinho, mas faz o que está ao seu alcance: informa. Se você fuma, considere parar. Se tem histórico de exposição a substâncias químicas no trabalho, comunique ao seu médico. E se notou sangue na urina, mesmo uma única vez, mesmo sem dor, procure um urologista. Não amanhã. Hoje.

Dr. Rodolfo Garcia Borges é urologista especializado em uro-oncologia e cirurgia robótica, com atuação no tratamento de câncer de próstata, rim e bexiga por meio de técnicas minimamente invasivas. Possui formação em cirurgia robótica pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Atua no HCAN – MT e clínica Oncocenter, onde também é instrutor em cirurgia robótica e professor da residência médica de Urologia da UFMT. É membro de importantes sociedades urológicas nacionais e internacionais. As opiniões expressas são de natureza informativa e educacional, não substituindo a avaliação médica individualizada.

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