quarta-feira , 11 março 2026
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O que é recuperação extrajudicial, usada por GPA e Raízen para enfrentar crise

Com 8,9 milhões de empresas negativadas e a Selic em 15% ao ano, a maior em quase duas décadas, o Brasil enfrenta uma crise corporativa sem precedentes.

Quando gigantes como Grupo Pão de Açúcar (GPA) e Raízen recorrem a um instrumento jurídico pouco conhecido para se reestruturar e evitar uma situação pior, é sinal de que o cenário atingiu um ponto crítico. Desde o início do ano, a recuperação extrajudicial (RE) virou estratégia de sobrevivência para várias empresas.

Diferente da recuperação judicial (RJ), que ocorre sob intensa supervisão do Judiciário desde o início, a recuperação extrajudicial funciona como uma negociação direta entre a empresa e seus credores. Nesse modelo, a empresa negocia diretamente com credores antes de recorrer à Justiça

Segundo o advogado Fernando Canuto, sócio do Godke Advogados, esse modelo permite que empresas em dificuldade negociem com grupos específicos de credores, sem a necessidade de incluir todos no acordo.

Embora ambos os processos sejam regidos por uma legislação de 2005, atualizada em 2020, e visem evitar a falência, as rotas são distintas:

A agilidade é a principal vantagem da recuperação extrajudicial. Enquanto uma recuperação judicial pode se arrastar por anos em debates processuais, a extrajudicial tende a ser resolvida em meses.

Tanto para o GPA quanto para a Raízen, o protocolo da RE garantiu uma suspensão temporária de pagamentos de 90 dias, período em que as empresas esperam concluir as formalidades e obter a homologação definitiva.

Por que agora?

A resposta está na pressão financeira aguda que assola o setor corporativo do país. Essa crise é amplificada por um contexto macroeconômico adverso. A taxa de inadimplência do Sistema Financeiro Nacional em 4,2%, o maior índice da série histórica do Banco Central desde março de 2011, reflete tanto a dificuldade de empresas quanto de pessoas físicas em honrar compromissos.

Mas o impacto real recai sobre as corporações: sem acesso a crédito e com custos de financiamento proibitivos, grandes empresas como GPA e Raízen enfrentam um cenário onde a reestruturação deixou de ser opção e virou necessidade.

O Brasil também enfrenta uma contração de liquidez. Empresas que dependem de refinanciamento constante — como varejistas e produtoras de energia — veem seus custos de captação dispararem. Cada ponto percentual adicional da Selic representa milhões em despesas financeiras extras, comprimindo margens operacionais já fragilizadas.

A pressão sobre as famílias brasileiras também contribui para esse quadro. Com 29,2% da renda comprometida com o pagamento de dívidas e endividamento de 49,7%, segundo o Banco Central, o consumo tende a enfraquecer. O efeito se espalha pela economia: famílias compram menos, varejistas vendem menos e empresas mais endividadas têm dificuldade para gerar caixa.

Procura por recuperação extrajudicial está em alta

Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Orbe), foram 78 casos no ano passado, uma sequência de sete anos consecutivos de crescimento e 20% a mais do que em 2024.

A advogada Patrícia Maia, sócia do escritório Barbosa Maia Advogados, afirma que o aumento do uso da recuperação extrajudicial reflete um cenário de dívidas mais caras, redução de consumo em determinados setores e a necessidade de reorganizar estruturas operacionais devido ao alto custo do crédito e pressão sobre as margens.

“A reestruturação financeira deixou de ser vista apenas como um ‘último recurso’ e passou a integrar as estratégias de gestão de risco das companhias”, diz.

Para Renato Armoni, sócio do Urbano Vitalino Advogados, se o plano for acatado pela maioria dos credores, as empresas prosseguirão com suas operações normalmente, protegendo o valor do negócio para acionistas e trabalhadores.

Raízen: a maior recuperação extrajudicial do país

O pedido da Raízen é histórico pelo volume: R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. A companhia, controlada em partes iguais por Shell e Cosan (44% cada uma), tentou negociar alternativas com seus sócios nos meses anteriores para evitar a reestruturação, mas as conversas foram interrompidas no início de março. Sem êxito nas negociações, a recuperação extrajudicial se tornou o último recurso.

A Raízen chegou a esse estado devido a uma combinação de fatores operacionais e macroeconômicos: aumento de despesas financeiras com a Selic elevada; clima adverso que reduziu a produtividade da cana-de-açúcar em cerca de 30%; investimentos em projetos de longo prazo como o Etanol de 2ª Geração que consumiram caixa sem retorno imediato; e queima de quase R$ 2 bilhões apenas no 3º trimestre da safra 2025/26.

O plano da Raízen contempla uma capitalização de R$ 4 bilhões (sendo R$ 3,5 bilhões da Shell), conversão de 40% da dívida em participação acionária e o alongamento do saldo remanescente. O processo já nasceu com 47% de adesão dos credores.

A viabilidade, porém, depende de premissas críticas: a projeção de redução da Selic para 12,25% até o fim de 2026 é central para o plano, mas qualquer pressão inflacionária pode forçar o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo. Para a Raízen, cada ponto percentual adicional de Selic amplia o custo financeiro e reduz a margem de manobra operacional.

Pão de Açúcar: varejo alimentar sob pressão

No caso do GPA, o plano envolve R$ 4,5 bilhões. A companhia enfrentou uma deterioração severa de liquidez após a cisão do Assaí e do grupo varejista colombiano Éxito, que reduziram sua escala e diversificação geográfica.

Com capital de giro negativo de R$ 1,2 bilhão e R$ 1,7 bilhão em debêntures vencendo em 2026, a empresa não teve alternativa senão buscar a recuperação extrajudicial para evitar um cenário pior.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, observa que a estrutura financeira do GPA estava “pesada”, com quase R$ 1 bilhão consumido anualmente apenas com juros. A recuperação extrajudicial visa “alongar a dívida para dar fôlego à operação”. O plano já conta com 46% de apoio inicial.

A execução operacional é o maior desafio do GPA. O plano prevê reduzir despesas operacionais em R$ 415 milhões — uma cifra ambiciosa que exige otimizações severas na estrutura de lojas. Qualquer falha nessa redução compromete o plano.

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