KAMILA GARCIA
Vivemos em uma época marcada pelo excesso de informação, de consumo e de estímulos. No entanto, paradoxalmente, somos atravessados por um sentimento crescente de vazio. Nunca tivemos tantas possibilidades ao alcance das mãos e, ainda assim, nunca foi tão comum sentir medo, ansiedade e desconexão. Isso não é coincidência; é o reflexo de uma sociedade que aprendeu a buscar no exterior as respostas que só existem no território interno.
O medo como bússola
Desde que o ser humano passou a se orientar mais pelo medo do erro do que pela confiança na vida, a existência deixou de ser vivida com inteireza. Para sobreviver, criamos mecanismos de defesa, máscaras sociais e uma personalidade voltada para agradar e competir. Embora essas estruturas nos protejam em certa medida, elas também nos distanciam de nossa essência e da nossa dimensão espiritual.
O problema central é a crença de que a felicidade reside no acúmulo: mais bens, mais reconhecimento, mais status. Essa lógica transforma relações em trocas, pessoas em meios e a própria vida em uma corrida sem linha de chegada. O resultado é previsível: quanto mais se tenta preencher o “ter”, maior se torna a fome do “ser”.
A coragem de olhar para dentro
Defendo a ideia de que essa busca incessante por preenchimento externo é uma das principais causas do mal-estar contemporâneo. Enquanto o foco estiver na validação do outro, o eu continuará sufocado pelo ego e pela vaidade.
Existe, porém, uma alternativa pouco incentivada, mas profundamente transformadora: a jornada interior. Olhar para dentro exige coragem, pois implica reconhecer limites, contradições e fragilidades. No entanto, é somente nesse movimento de honestidade radical que encontramos o equilíbrio. O bem e o mal deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser compreendidos como partes integrantes do amadurecimento humano.
O reencontro com o Sagrado
Cada indivíduo carrega em si uma dimensão criadora — uma capacidade de amar e de se conectar que transcende o visível. Independentemente de crenças religiosas, há uma força que sustenta a experiência humana e se manifesta na empatia, no cuidado e, principalmente, no silêncio da consciência.
O que muitos chamam simbolicamente de “Santo Graal” não é um cálice de ouro escondido em terras distantes ou um ideal inalcançável. O verdadeiro Graal é o reencontro consigo mesmo. Quando essa integração acontece, o ego perde a centralidade, a vida ganha sentido próprio e as relações tornam-se, finalmente, mais humanas.
O primeiro passo
A chave para essa transformação é o autoconhecimento. Sem ele, permanecemos presos a reações automáticas e escolhas que não nos representam. Conhecer a si mesmo é descobrir que não somos apenas o que fazemos ou possuímos, mas aquilo que resta quando todas as máscaras caem.
Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja conquistar novos mundos, mas recordar quem somos. É compreender, de uma vez por todas, que o tesouro que buscamos fora nunca deixou de habitar o nosso interior.
Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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