sexta-feira , 29 agosto 2025
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Novas sanções agravam “combinação letal” que já causa quebradeira recorde no país

Uma combinação letal de fatores está agravando a situação financeira das empresas brasileiras e elevando os números de recuperação judicial e falência. O cenário, já complicado pela taxa de juros elevada, ganhou novos contornos com o anúncio das tarifas comerciais dos Estados Unidos — segundo maior cliente dos produtos brasileiros — e pode piorar ainda mais caso o presidente Donald Trump aplique novas sanções ao país.

A Casa Branca monitora de perto a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que se encontra em prisão domiciliar e será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a partir de 2 de setembro. Uma eventual condenação pode desencadear novas sanções contra o Brasil. As que mais preocupam são as econômicas, capazes de deteriorar ainda mais a situação das empresas nacionais.

Em gesto de alinhamento com Bolsonaro, desde o anúncio do tarifaço, no início de julho, Trump e membros de seu governo sinalizaram medidas adicionais que ainda podem ser adotadas contra o Brasil:

  • ampliação das tarifas comerciais,
  • extensão dos efeitos da Lei Magnitsky e
  • exclusão do país do Swift — o sistema internacional de pagamentos bancários.

O número de empresas em recuperação judicial atingiu novo recorde no primeiro semestre: 4.965 companhias, alta de 17,6% em relação ao mesmo período de 2024, segundo a RGF Associados, consultoria especializada em reestruturação corporativa. Duas em cada mil empresas brasileiras ativas, excluindo os microempreendedores individuais, adotavam o recurso em julho.

A recuperação judicial é um mecanismo legal que permite às empresas em dificuldades financeiras renegociar suas dívidas com credores sob supervisão judicial, evitando a falência imediata. O processo oferece proteção contra execuções e penhoras por até 180 dias, período no qual a empresa deve apresentar um plano detalhado de como pretende quitar seus débitos e retomar a viabilidade econômica.

Outro dado revela a gravidade da situação: quase 30% das empresas que concluem o processo de recuperação judicial acabam indo para a falência — o maior índice já registrado pela consultoria desde o início da série histórica.

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O que explica o recorde em recuperação judicial?

Juros altos: o principal vilão da saúde financeira

Com a taxa Selic em 15% ao ano, e com reduzidas expectativas de queda ainda em 2025, o custo do crédito bancário permanece proibitivo para a maioria das empresas brasileiras. Desde 2023, o número de recuperações judiciais cresce em paralelo com a elevação dos juros, criando um círculo vicioso que dificulta o acesso a financiamentos convencionais e aperta progressivamente o caixa das companhias.

A alta dos juros afeta as empresas em múltiplas frentes. Primeiro, encarece o custo de capital de giro e investimentos, forçando muitas companhias a reduzir operações ou postergar expansões. Segundo, aumenta o custo de rolagem de dívidas existentes, especialmente aquelas com taxas variáveis. Por fim, reduz o consumo das famílias, diminuindo a demanda pelos produtos e serviços das empresas.

“A expectativa de redução no número de recuperações judiciais só se concretizaria em um cenário de juros mais baixos, o que, por enquanto, não é o que se espera para este ano”, analisa Roberta Gonzaga, especialista da RGF Associados. A perspectiva de manutenção dos juros elevados, motivada pelo combate à inflação e pela necessidade de equilibrar as contas públicas, mantém o ambiente desfavorável para os negócios.

Tarifaço de Trump e o risco de novas sanções comerciais

As tarifas comerciais de 50% impostas pelo governo americano representam um golpe adicional e inesperado para as empresas brasileiras. O agronegócio nacional será um dos setores mais duramente afetados pela medida. A taxação, que entrou em vigor no dia 6, poupou apenas o suco de laranja entre os principais itens do setor.

A perda de competitividade no mercado americano pode resultar em cancelamentos de pedidos e necessidade de buscar mercados alternativos, frequentemente com preços menos atraentes.

Para Nathália Grizzi, sócia do Martorelli Advogados e especialista em direito empresarial, se houver redução significativa nas exportações sem escoamento adequado para novos mercados, “é possível imaginar um incremento no número de pedidos de recuperação judicial, pois isso trará pressão financeira adicional para o setor do agronegócio, que é intensivo em capital”.

O efeito cascata pode ser observado já neste ano, afetando não apenas as atividades diretamente tarifadas, mas toda a cadeia produtiva.

A ameaça da Lei Magnitsky ao sistema financeiro

A possibilidade de aplicação da Lei Magnitsky americana sobre instituições financeiras brasileiras adiciona uma nova e imprevisível camada de incerteza ao ambiente empresarial nacional. A lei, aprovada pelo Congresso americano em 2012, autoriza o governo dos Estados Unidos a impor sanções financeiras e de visto a indivíduos e organizações considerados responsáveis por violações de direitos humanos e atos de corrupção significativa.

O mecanismo funciona através do congelamento de ativos americanos e proibição de transações com instituições financeiras dos Estados Unidos. Para um país como o Brasil, altamente integrado ao sistema financeiro internacional e com parte significativa de suas reservas e transações comerciais denominadas em dólar, o impacto seria devastador.

“O impacto seria uma ‘bomba atômica’ na economia brasileira”, alerta Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central e atual consultor econômico.

O dilema jurídico é complexo para as instituições financeiras. Uma decisão recente do STF reforçou o princípio de que leis estrangeiras não podem ser aplicadas unilateralmente no território brasileiro, criando um risco de penalização tanto nos Estados Unidos — para instituições que mantiverem relações comerciais com eventuais sancionados — quanto no Brasil, por potencial descumprimento da determinação do STF.

Desorganização interna também leva empresas à crise

Não são apenas os fatores macroeconômicos que explicam a crise empresarial brasileira. Segundo Marcos Pelozato, advogado especializado em reestruturação empresarial, a grande maioria dos empresários busca ajuda jurídica apenas em estágio muito avançado de desorganização financeira e jurídica, quando as alternativas de recuperação já se tornaram significativamente mais limitadas e custosas.

Especialistas apontam que é muito comum encontrar empresas que nem sequer têm controle claro e atualizado sobre o montante total de suas dívidas, distribuição entre credores ou prazos de vencimento.

Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike, aponta uma questão fundamental frequentemente negligenciada: “Muitas vezes, o problema não é necessariamente a falta de capital, mas sim a forma inadequada como ele é contratada e utilizada. O excesso de alavancagem malfeita, com custo excessivamente alto e no momento economicamente errado, acaba comprometendo a própria sobrevivência da empresa a médio prazo”.

Quais os setores mais afetados pela crise?

Agronegócio e Centro-Oeste lideram estatísticas

O Centro-Oeste concentra a maior gravidade da crise empresarial, com 2,75 empresas por cada mil em processo de recuperação judicial — um índice 40% superior à média nacional que evidencia a particular vulnerabilidade do agronegócio regional.

Mato Grosso, principal estado produtor de commodities do país, apresenta números especialmente preocupantes entre os produtores de soja, com 21,5 operadores em recuperação judicial a cada mil, e de cana-de-açúcar, com 20,9 por mil.

O processamento agrícola revela a face mais dramática da crise setorial. A fabricação de açúcar registra 181,4 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas no segmento, seguida pelos produtos derivados do arroz, com 117,7 por mil, e a produção de etanol, com 74,8 por mil.

O agronegócio enfrenta sua pior crise em décadas, com 11,5 empresas a cada mil em processo de recuperação judicial — quase seis vezes superior à média nacional. O crescimento de 13,8% no número de casos durante o segundo trimestre de 2025 confirma que a tendência de deterioração não apenas persiste como se acelera, alimentada pela combinação tóxica de juros elevados, custos crescentes de insumos e instabilidade nos mercados internacionais.

Durante o primeiro trimestre do ano, foram registrados 389 novos pedidos de recuperação judicial no setor, segundo a Serasa Experian — uma alta de 21,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Somente entre os produtores rurais pessoa física, foram contabilizados 195 pedidos, concentrados principalmente entre arrendatários que enfrentam a dupla pressão de custos fixos elevados de arrendamento e receitas voláteis dependentes de fatores climáticos e de mercado.

Indústria, serviços e comércio também sentem o impacto

A indústria nacional registrou 1.121 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre, uma ligeira alta de 0,1% em relação ao período anterior. O setor de serviços apresentou 1.117 empresas em recuperação judicial, com alta de 2% que reflete principalmente as dificuldades enfrentadas por atividades dependentes do consumo discricionário das famílias.

O comércio registrou 1.003 empresas em processo de recuperação judicial, crescimento de 0,7%. Dois fatores favorecem essa situação: o elevado comprometimento de renda das famílias com dívidas e as altas taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras.

Como as empresas podem superar o cenário adverso?

Para Rodrigo Gallegos, sócio da RGF Associados e especialista em reestruturação corporativa, o atual cenário demanda mudanças fundamentais na gestão empresarial brasileira.

“Empresas que conseguem focar rigorosamente na gestão de caixa, renegociam dívidas com critério estratégico e ajustam suas operações com velocidade adequada são as que demonstram melhor capacidade de atravessar este tipo de ciclo econômico adverso”, observa o executivo.

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