Preocupado com um possível desgaste da imagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) junto à população, ponto que vem sendo explorado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o entorno do chefe do Executivo elabora estratégias para tentar mostrar, ao longo da corrida presidencial, que o postulante à reeleição tem condições de apresentar novidades e apontar caminhos para o futuro num eventual Lula 4.
Para contrapor outro flanco que deve ser instrumentalizado na campanha, que é a diferença de idade entre os rivais, já está em curso a aposta em vídeos de corridas e outras atividades físicas em busca de ressaltar a vitalidade do titular do Planalto.
Os próprios aliados do petista, porém, admitem uma espécie de fadiga política do presidente após quatro décadas de eleições disputadas e quase três mandatos completos no Planalto.
Embora considerem esse ponto natural e um debate inevitável no ano eleitoral, esses interlocutores defendem que é necessário buscar olhar para a frente, seja por meio de propostas a serem encampadas pela gestão que dialoguem com as necessidades atuais, a exemplo do fim da escala 6×1, seja mirando segmentos específicos da sociedade, como a juventude e mulheres que vivem nos grandes centros.
Governistas reconhecem que pesquisas recentes mostrando uma manutenção da rejeição à gestão petista a seis meses das eleições acendem um sinal de alerta. Levantamento Genial/Quaest divulgado neste mês reforçou a dificuldade para melhorar a popularidade: 51% dos entrevistados desaprovam o governo Lula, enquanto 44% aprovam. O petista também é alvo de alta rejeição, com 56% dos entrevistados afirmando que não votariam nele — em fevereiro, o índice era de 54%.
Aliados antecipam uma eleição acirrada, decidida no detalhe, uma vez que, sob essa ótica, existiria somente uma pequena parcela do eleitorado realmente em disputa. A aposta é na manutenção do cenário de polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Fator idade
O entorno de Flávio, por sua vez, busca explorar esse desgaste de imagem para atacar o presidente, numa tentativa de vender o parlamentar como a renovação, em contraposição ao petista. O “fator idade” também deve ser utilizado — Lula terá 81 anos caso eleito, e Flávio, 45.
Durante agenda em fevereiro, por exemplo, o senador comparou o petista a um “Opala velho” e disse que o adversário é “um produto vencido” que “já foi bonito e hoje não leva para lugar nenhum”. A resposta do presidente veio na última quinta-feira, no Rio:
— Quando ele fala isso, não me ofendo. Já tive um Opala turbinado. Ele fala porque o Opala dele é o pai, que está no desmanche.
Para contrapor ataques etários a Lula, a proposta do grupo do presidente é demonstrar vitalidade e disposição. Desde o ano passado, aumentou a frequência de ocasiões em que o presidente aparece correndo em eventos ou se exercitando. Na última semana, por exemplo, ao menos três vídeos de Lula nesse sentido foram divulgados nas redes sociais. Na quarta-feira, ele compartilhou conteúdo no qual aparece correndo para cumprimentar apoiadores.
— Por que as pessoas não andam meia hora todo dia? Por que não caminham? Por que não fazem ginástica? As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco — disse o presidente em evento no qual o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), seu aliado, formalizou a aplicação de canetas emagrecedoras na rede municipal.
Tática revista
Nos bastidores, integrantes do governo reconhecem que foram surpreendidos pela rapidez com que a candidatura de Flávio se consolidou e dizem que esse cenário reforça a necessidade de o PT e o Executivo anteciparem a estratégia de confronto com o filho de Bolsonaro, algo que até então estava em segundo plano. No entendimento de lulistas, seria fácil desmanchar a retórica de que Flávio representaria uma renovação política.
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Um interlocutor frequente do chefe do Executivo diz que a campanha deverá explorar que o parlamentar simboliza, na verdade, a velha política, apontando supostos elos do senador com a milícia no Rio de Janeiro e resgatando a investigação sobre rachadinha em seu gabinete quando deputado estadual, que acabou arquivada pela Justiça. Outra tentativa será a de desconstruir a narrativa de que o senador é um candidato moderado, relembrando posicionamentos anteriores do rival.
Outro aliado de longa data do presidente reconhece que o cenário atual é delicado, mas afirma que a campanha precisa trazer para o centro do debate temas que afetam o dia a dia da população. Para opor o discurso de que Lula estaria ultrapassado, diz, o melhor caminho é colocá-lo como um político experiente e apto a governar.
Nesse esforço, um integrante do governo que despacha no Planalto conta que Lula tem demonstrado que é preciso acenar à juventude, seja a partir do incentivo de renovação dos quadros políticos do PT, seja a partir de propostas para essa parcela da população. O ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), por exemplo, assumiu a pasta afirmando ter como uma das missões do chefe do Executivo esse diálogo com jovens e com a periferia.
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Para Mauricio Moura, fundador do Idea Big Data, o desgaste da imagem de Lula, identificado pelas pesquisas, está mais atrelado ao cenário de polarização do que à quantidade de eleições que o político já disputou. Ele acredita que apenas 4% do eleitorado estão em disputa hoje:
— A maioria dos chefes de Estado pelo mundo atualmente tem maior desaprovação do que aprovação, e um dos motivos é porque são eleitos em cenário polarizado e já começam os mandatos com alta rejeição. É muito difícil conseguir votos entre eleitores que foram contra ele em 2022, a margem de melhora é estreita. A pergunta que vai ser respondida neste ano, assim como foi nas eleições de 2022, é se o atual governo merece continuar no poder ou não.
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