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"Isso é um roubo": 55 produtores denunciam golpe de R$ 300 milhões em Cláudia

VANESSA MORENO

DO REPÓRTERMT

Pelo menos 55 produtores rurais do município de Cláudia (a 532 km de Cuiabá), no interior de Mato Grosso, foram vítimas de um golpe que causou prejuízo de cerca de R$ 300 milhões e abalou a capacidade econômica da região. De acordo com as diversas denúncias, o responsável pelo golpe seria Eleandro Beraldo, um dos donos do Grupo Caage, composto pelas empresas Caage Fazendas, Beraldo Agropecuária e Agropecuária Santa. O grupo tem como sócios Ana Paula da Silva Carolo e Marcelo Luiz Carolo.

Algumas das vítimas alegam que venderam grãos, como soja e milho, para Eleandro e não receberam o pagamento. Outras afirmam que depositaram grãos nos armazéns do Grupo Caage e que os produtos simplesmente desapareceram. Mais de 1,5 milhão de sacas de milho e 800 mil sacas de soja desapareceram.

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O golpe ocorreu em 2023. Uma série de ações judiciais foi movida contra os envolvidos, e o grupo virou alvo da Polícia e do Ministério Público.

Contudo, os prejudicados reclamam da demora da Justiça para solucionar o problema.

Reprodução

GOLPE DA CAAGE EM CLÁUDIA

 

Em busca de uma saída, uma reunião entre as vítimas foi realizada na quinta-feira (26), em Cláudia. O advogado, ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara, João Paulo da Cunha (PT), foi indicado pelo ex-deputado estadual José Riva para prestar auxílio aos produtores atingidos.

Na reunião, ele afirmou que pretende buscar uma forma de enfrentar a demora na solução judicial.

“Nós vamos usar aquilo que já está feito pelos advogados, pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e pela própria Justiça de Mato Grosso, vamos descobrir outros caminhos que nós estamos estudando, pra fazer com que esse assunto tenha uma dimensão maior”, disse o advogado.

Ele relatou que esteve em Cláudia para conhecer a realidade vivida pelos produtores rurais e ouviu relatos sobre a perda da capacidade econômica do município.

Advogado João Paulo da Cunha – Reprodução

GOLPE DA CAAGE EM CLÁUDIA

 

“Ouvi de mais de uma pessoa que a cidade perdeu muito sua capacidade econômica. Depois desse golpe, sofreu uma dura queda”, disse João Paulo da Cunha.

O jurista descreveu o golpe como uma “operação estranha”.

“É um conjunto de pessoas físicas com pessoas jurídicas que fizeram uma operação (eu vou moderar nas palavras) estranha e que precisarão ser investigadas essas ações. O que é fato é que vários produtores rurais aqui de Cláudia e da região foram lesados. Alguns perderam os seus grãos, o seu dinheiro, a sua propriedade e até a dignidade”, afirmou.

Uma das vítimas, disse que depositou soja e milho no armazém do Grupo Caage, mas o produto foi levado para outro local e registrado em nome de particular. Hoje, o agricultor enfrenta consequências financeiras, como o pagamento de juros, pois precisou recorrer a instituições financeiras para se restabelecer.

“Eu não fui golpeado. Eu fui roubado. Isso é roubo”, disse.

Outra vítima contou que confiava em Eleandro e vendia grãos para ele, mas acabou caindo no golpe da Caage. “Pra mim foi um roubo”, relatou.

Ele afirmou que a reunião com o advogado representa a esperança de uma saída.

Outro produtor também vendeu para Eleandro em 2022, quando recebeu corretamente. Em 2023, vendeu novamente, mas não recebeu o pagamento. O prejuízo foi de R$ 67 mil.

Uma produtora teve prejuízo de R$ 1,5 milhão em razão da venda de grãos de soja.

Outra vítima sofreu um AVC, ficou com o lado esquerdo do corpo paralisado e incapacitado para o trabalho. Após o golpe, enfrentou problemas financeiros, teve que vender carro e casa e hoje trabalha como servidor público. Ele tentou fazer um acordo com Eleandro para receber pelo menos 20% do valor, mas não consegue contato.

Recuperação Judicial

Em 2023, o Grupo Caage pediu recuperação judicial, alegando dívida de R$ 451.230.615,75.

No pedido, afirmou que a crise financeira começou em 2016, quando decidiu migrar do plantio de arroz para soja e milho, acumulando empréstimos junto a terceiros.

Sustentou ainda que, em 2019, devido a uma forte chuva, teve prejuízo de R$ 15 milhões na plantação. Em 2020, um cenário de incertezas quanto ao valor e à disponibilidade dos produtos teria prejudicado o relacionamento com clientes, prestadores de serviço e o volume de negócios em Cláudia, elevando a dívida para R$ 180 milhões.

Reprodução

CAAGE

 

Entre 2020 e 2021, declarou que perdeu mais 60% do plantio de soja, causando prejuízo superior a R$ 20 milhões.

O Grupo Caage citou ainda uma plantação de eucalipto em Primavera do Leste, consumida pelo fogo em setembro de 2021.

No pedido, relatou que tentou evitar desgastes com credores e demonstrar boa-fé, mas, diante de um mercado desfavorável, desistiu da venda de grãos para não agravar a situação financeira.

Também informou que precisou entregar a unidade do armazém de Cláudia a outro grupo, em razão das dívidas, e que deixou a cidade após receber ameaças.

Pedido negado

Em dezembro de 2023, a juíza da 4ª Vara Cível de Sinop, Giovana Pasqual de Mello, negou o pedido de recuperação judicial da Caage, ao entender que o grupo não cumpriu os requisitos legais. A decisão teve como base parecer prévio que apontou irregularidades e inconsistências, entre elas a existência de inquérito policial.

O inquérito foi instaurado pela Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) para apurar o golpe liderado por Eleandro Beraldo. Conforme as investigações, os produtores depositaram os grãos no armazém, mas o produto não pôde ser retirado.

A magistrada considerou a gravidade dos fatos e o prejuízo à coletividade como impedimentos para o deferimento da recuperação.

Outra razão para a negativa foi a fragilidade das informações contábeis, com livros-caixa incompatíveis com o fluxo financeiro. A juíza destacou ainda que a Caage tinha inscrição estadual suspensa e grande diferença entre o capital social inicial e o atual, sem registro de alterações contratuais. Além disso, a empresa alterou o objeto social para cultivo de grãos pouco antes do pedido de recuperação, embora não estivesse atuando no ramo.

Quanto às empresas Agropecuária Santa e Beraldo Agropecuária, a magistrada apontou que apresentavam receitas irrisórias e não possuíam funcionários registrados.

A entrega de armazéns a credores para saldar dívidas milionárias antes do pedido de recuperação foi considerada transação duvidosa, com prejuízo à coletividade de credores e inviabilização da continuidade da armazenagem.

Segundo a juíza, o pedido também apresentava falta de informações e documentos que refletissem a real situação patrimonial do grupo. A lista de credores estava incompleta, assim como a relação de bens.

Também foram identificadas baixas significativas nos valores de estoque, clientes e adiantamentos a fornecedores, sem comprovação.

Os erros, segundo Giovana Pasqual de Mello, eram irreparáveis mesmo após duas oportunidades concedidas pela Justiça para correção.

“Por fim, não se pode olvidar que os vícios que obstam o recebimento do pedido são insanáveis, sendo despicienda a oportunização de nova manifestação dos autores, quando já foram oportunizadas duas emendas à inicial, bem como foram apresentadas justificativas e documentos ao profissional que realizou a constatação prévia, o qual, incansavelmente, realizou dois relatórios nos autos, concluindo pelas inúmeras deficiências, irregularidades e inconsistências de dados dos requerentes”, observou.

“Ante o exposto, indefiro o processamento da recuperação judicial dos requerentes, com fulcro nos artigos 47, c/c art. 48 e 51, inciso I, II, III, V, VI, VII, IX e XI, da Lei n.º 11.101/2005. Por consequência, julgo extinto o processo, sem resolução de mérito, com fundamento no artigo 485, inciso I, do CPC. Revogo a medida concedida liminarmente. Retire-se o sigilo dos autos”, acrescentou.

Veja vídeo:

 


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