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Grupo do TJ faz relatório e acusa tortura sistemática e "poder paralelo" em presídio de Sinop; Sejus abre investigação

GUSTAVO CASTRO

DO REPÓRTERMT

Um relatório sobre inspeção feita na Penitenciária Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, conhecida como “Ferrugem”, em Sinop (a 478 km de Cuiabá), em Mato Grosso, revelou a existência de práticas sistemáticas de tortura e maus-tratos contra presos na unidade. A Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) abriu uma investigação para apurar o caso.

A inspeção foi feita por ordem da Corregedoria-Geral da Justiça e do Grupo de Monitoramento e Fiscalização (GMF) do Sistema Prisional e Socioeducativo, ambos vinculados ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), entre os dias 29 e 30 de outubro deste ano, e o relatório é assinado pelo juiz de Direito Marcos Faleiros.

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Durante a inspeção, autoridades judiciais identificaram abusos como disparos de munição de borracha, uso indiscriminado de spray de pimenta e espancamentos. Os presos, muitos deles ligados a facções criminosas, relataram humilhações diárias e agressões físicas constantes.

A situação foi agravada pela presença de um poder paralelo dentro da unidade. Conforme o relatório, o diretor do presídio, Adalberto Dias de Oliveira, teria desafiado as ordens do Poder Judiciário, afirmando que “quem manda lá é ele”, numa tentativa de barrar a inspeção. 

Detentos relataram que, após visitas de juízes e desembargadores, a violência e os abusos aumentaram, com retaliações diretas aos internos que denunciaram as condições da prisão.

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Em um ato ainda mais grave, o relatório aponta uma tentativa de atentado contra as autoridades que foram ao local fazer a inspeção, supostamente planejado por Adalberto, com a colaboração de outros membros da direção. A ação teria como objetivo minar a credibilidade da inspeção e retaliar os presos que haviam denunciado os abusos.

Tortura

Os detentos não hesitaram em relatar os abusos durante as oitivas. Um dos internos contou que a quebra de protocolo é rotina na unidade. Segundo o criminoso, depois da visita do desembargador Orlando Perri, Adalberto teria os ameaçados.

Ele [Adalbert] falou: ‘não adianta vocês virem com Desembargador, Defensor, Ministério Público, não adianta! Pois ninguém tira eu daqui!’”. Esse preso contou também das agressões com balas de borracha e tiros disparados sem motivo justificável, causando ferimentos em diversos detentos.

Outro presidiário revelou que, após uma inspeção judicial anterior a essa, a violência foi retaliada. “O Adalberto negou a ordem de abrir o ‘Latão’ [celas superlotadas e fechadas], dizendo que ‘quem manda no presídio sou eu e não é o Desembargador nem o Fidelis’.” Ele também expôs agressões físicas e o uso de spray de pimenta para submeter os presos a sofrimento intenso.

Poder Paralelo e ameaças às autoridades

Segundo consta do relatório, o clima de desprezo pelas autoridades externas é reforçado pelos depoimentos sobre o diretor da unidade, Adalberto Dias de Oliveira, e sua postura desafiadora. Detentos afirmam que ele frequentemente se vangloriava de seu poder absoluto dentro da penitenciária.

Outro preso confirmou que o diretor reforçava que ‘quem mandava lá era ele’. Após a visita do Desembargador, ele falou: “Não é juiz, não é ninguém que vai me tirar do cargo. Ninguém me tira daqui’.”

A situação de poder paralelo ficou ainda mais clara com os relatos de ameaças ao juiz que coordenava a inspeção.

Um dos líderes de uma facção criminosa dentro do presídio revelou em depoimento que o diretor Adalberto, junto ao subdiretor Antônio Carlos Negreiros, teria planejado atacar as autoridades presentes durante a inspeção. O plano, segundo esse faccionado, tinha como objetivo deslegitimar os relatos de tortura.

O Adalberto me prometeu regalias, como transferência para o Raio Evangélico, se eu atacasse o juiz e o promotor”, declarou o detento.

A tentativa de atentado contra o juiz Marcos Faleiros e o promotor Luiz Gustavo Mendes de Maio foi frustrada graças à vigilância dos membros da equipe, mas levantou sérias questões sobre a segurança e o controle da unidade.

Tentativa de atentado ao juiz

Durante a segunda rodada de depoimentos, no dia 30 de outubro de 2025, esse líder de facção confessou que, a pedido da direção, estava planejando atacar as autoridades durante a audiência. O depoente relatou que, ao ser levado à sala de audiência, desprezou o uso correto das algemas e se preparava para atacar o juiz e o promotor.

Os policiais retiraram minhas algemas e me deixaram solto para avançar, mas decidi não fazer isso. Eles me deixaram entrar com um estilete, mas eu preferi não usar”, revelou.

A situação de risco não se limitou à ação dentro da penitenciária. O próprio juiz Marcos Faleiros e a equipe de inspeção viveram momentos de intimidação na estrada de volta a Cuiabá. Segundo o relatório, uma caminhonete seguiu o veículo do Tribunal de Justiça em alta velocidade, tentando interceptá-lo na rodovia, antes de desaparecer na vegetação à beira da estrada. O juiz, em depoimento, afirmou que nunca havia enfrentado uma situação de risco tão clara em sua carreira, considerando a tentativa de interceptação como uma tentativa de intimidação direta.

Outro lado

Procurada, a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) se manifestou por meio da nota abaixo:

A Secretaria de Estado de Justiça (Sejus) informa que recebeu, na última sexta-feira (12/12), o relatório de inspeção realizado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) na Penitenciária Dr. Osvaldo Florentino Leite Ferreira, em Sinop.

Paralelamente à referida inspeção, a Sejus instaurou, no mês de novembro, procedimento administrativo de apuração, conduzido pela Corregedoria-Geral da instituição, com a finalidade de examinar de forma minuciosa e imparcial dos fatos ocorridos durante um início de motim por parte dos reeducandos, que tentaram, na ocasião, destruir as celas da carceragem.

Esta Secretaria ressalta ainda que durante o ano de 2025 não houve denúncia formal em nenhum órgão fiscalizador sobre suposta tortura na referida penitenciária.

A Sejus não coaduna com nenhum tipo de abuso ou prática criminosa e caso seja confirmado, serão adotadas as medidas cabíveis para a devida responsabilização.

Veja fotos:

Galeria: Grupo do TJ faz relatório e aponta tortura, intimidação e ‘poder paralelo’ no presídio Ferrugem


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