segunda-feira , 2 março 2026
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Do Irã ao seu bolso: o que a guerra no Oriente Médio muda no Brasil

O ambiente internacional, que já encerrava fevereiro sob cautela, foi transformado profundamente neste fim de semana por uma operação militar sem precedentes. Os Estados Unidos e Israel lançaram no sábado (28) a “Operação Epic Fury” — ataques aéreos coordenados contra alvos estratégicos no Irã, resultando na destruição de infraestruturas militares e na morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. O objetivo declarado por Donald Trump foi eliminar o programa nuclear iraniano e forçar uma mudança de regime.

O cenário macroeconômico global, que ensaiava uma transição para maior estabilidade após os choques da pandemia, enfrenta agora um novo e severo teste de estresse. A deflagração do conflito reintroduziu a variável da insegurança e incerteza no centro das decisões financeiras.

A reação dos mercados foi imediata. O petróleo Brent disparou, o dólar se fortaleceu como ativo de proteção e investidores migraram para títulos do Tesouro americano.

No Brasil, o choque externo chega em momento delicado. O IPCA-15 de fevereiro, prévia oficial da inflação, já surpreendia negativamente. O dilema do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) tornou-se ainda mais agudo: manter o ritmo de cortes da Selic ou recuar diante da pressão cambial e dos custos crescentes.

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Petróleo pode ultrapassar US$ 100 e afetará a economia brasileira

O petróleo Brent registrou altas entre 7% e 13% nas aberturas de mercado após os ataques. A grande incógnita para os analistas reside na duração do conflito e na integridade logística das rotas de escoamento.

Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional, foi enfático nesta segunda-feira (2): “A escalada da guerra no Oriente Médio pode afetar a economia brasileira, caso o preço do petróleo ultrapasse os US$ 100”. Ele ponderou, entretanto, que no patamar atual — entre US$ 75 e US$ 85 — o risco inflacionário imediato ainda é contido pela valorização recente do real.

Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, reforça a centralidade do gargalo logístico. “Esse evento tem diversas implicações na economia global”, afirma. Para ela, o Estreito de Ormuz é o nó crítico da crise: qualquer interrupção no fluxo que passa por ali tem “impactos imediatos no abastecimento e na formação de preços” em escala mundial.

Verônica Cardoso, diretora da LCA Consultoria e especialista em comércio exterior, reforça essa leitura. Para ela, a preocupação central reside na “possível restrição de oferta de petróleo”, cujo impacto real dependerá de o conflito se tornar ou não prolongado.

“Embora, até o momento, não existam bloqueios ou bombardeios diretos nesta via logística crucial, a mera expectativa de uma restrição na oferta já desencadeou movimentações preventivas nas bolsas e no mercado de câmbio”, avalia.

O centro das preocupações, de fato, é o Estreito de Ormuz, o corredor marítimo entre os Emirados Árabes Unidos e o Irã, por onde transitam entre 20% e 35% do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito. O chamado “prêmio de Ormuz” — o risco embutido nas cotações do petróleo pela possibilidade de bloqueio do estreito — tornou-se o principal termômetro da crise.

“Qualquer ameaça ou interrupção neste ponto eleva o prêmio de risco da commodity (produto de base)”, alerta Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.

Em um cenário de bloqueio prolongado, analistas do Banco Safra e da Suno Research projetam que o barril poderia atingir entre US$ 100 e US$ 120.

Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, aponta um risco pouco discutido. “Praticamente todos os setores dependem do petróleo de uma maneira indireta”, diz. Ele cita logística e transporte como canais de transmissão do choque energético para o restante da cadeia produtiva.

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, destaca que a ação americana introduz uma “volatilidade institucional significativa”. Segundo ele, “se a interrupção de 20% no fluxo pelo Estreito de Ormuz persistir por mais de um mês, podemos ter desdobramentos mais graves”, incluindo a ruptura de cadeias globais de valor.

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Como a alta do barril chega aos combustíveis

O choque externo encontra o Brasil em um momento de vulnerabilidade interna. O IPCA-15 de fevereiro avançou 0,84%, superando o teto das estimativas. O acumulado de 12 meses já está em 4,10% — mais de um ponto percentual acima da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A surpresa inflacionária, puxada por serviços e itens administrados, havia provocado alta nos juros futuros antes mesmo dos ataques.

O petróleo mais caro funciona como um imposto invisível sobre o consumo e a produção. A lógica é direta: o barril sobe, o dólar sobe, o combustível na refinaria encarece.

“A cada 1% de aumento na gasolina, o impacto no IPCA é de 0,05 ponto percentual”, explica Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. O efeito cascata se espalha por fretes, logística e insumos agrícolas.

Cardoso aprofunda essa análise ao classificar os efeitos do choque em dois grupos. Os impactos diretos — combustíveis e derivados — são visíveis e imediatos. Mas são os efeitos indiretos, na expressão da economista, “da energia gerada pelo petróleo” que determinam a dimensão estrutural do problema: o custo de frete, que eleva o preço final de mercadorias em todo o território, os setores industriais dependentes de energia por combustão e os insumos agrícolas, fundamentais para a produtividade do agronegócio brasileiro.

Paixão reforça que um aumento prolongado no barril implica “repasse de preço para o consumidor final e para os produtores” — um risco duplo: além do bolso do consumidor, a alta pressiona as margens das cadeias produtivas dependentes de logística e insumos derivados do petróleo.

A política de preços da Petrobras (PETR4) será o amortecedor — ou o catalisador — do impacto inflacionário. O diesel tende a subir antes da gasolina, e a razão é simples: o Brasil depende mais de importação desse derivado. Analistas do Itaú apontam que o produto já acumulava “alguma defasagem antes mesmo dos ataques”.

O risco de manter preços abaixo da paridade não é apenas financeiro — é operacional. Se a estatal segurar os preços, os importadores privados perdem margem e o resultado pode ser escassez física de combustível. Soma-se a isso a variável política: em ano eleitoral, o incentivo para não repassar a alta ao consumidor é forte — e essa escolha já custou caro à estatal e ao país no passado.

Dólar em alta, real pressionado: a fuga para ativos seguros

A escalada militar interrompeu a trajetória de valorização do real. O movimento de fuga para ativos seguros reverteu rapidamente essa tendência: investidores migraram para o dólar, para o ouro — que atingiu máximas históricas próximas a US$ 5.400 por onça troy — e para os títulos do Tesouro americano.

A moeda americana, que encerrava fevereiro na casa de R$ 5,13, voltou a ser negociada próxima a R$ 5,20 na abertura de março. “O dólar tende a se fortalecer. O investidor busca proteção, e o dólar continua sendo um dos principais refúgios”, explica César Queiroz, CEO da Queiroz Investimentos.

A pressão cambial também interrompeu o fluxo das operações de carry trade (estratégia em que investidores captam recursos em países de juros baixos para aplicar onde a remuneração é maior). Analistas mais cautelosos veem a moeda americana buscando patamares entre R$ 5,34 e R$ 5,40 em caso de estresse persistente.

Cardoso pondera, contudo, que o Brasil ocupa uma posição estruturalmente distinta de economias europeias e asiáticas diante desse choque. “O Brasil é exportador líquido de petróleo”, lembra a economista da LCA Consultoria Econômica, o que confere ao país um efeito mais suave sobre a bolsa e o câmbio no impacto imediato do conflito.

Empresas como a Petrobras e outras produtoras e distribuidoras nacionais “se beneficiam de certa forma com choques negativos externos” ligados ao petróleo — fator que atua como amortecedor para o mercado de capitais doméstico. Essa proteção, no entanto, não é absoluta: a movimentação de preços e de câmbio é gerada pela “expectativa de preço pela capacidade de oferta” no Oriente Médio, e a continuidade das tensões pode forçar uma valorização do dólar por aversão ao risco global.

Guerra no Irã deixa Copom na berlinda: entre cortes e inflação em alta

A reunião do comitê do BC, marcada para meados de março, tornou-se o principal ponto de interrogação para especialistas e investidores. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos, avalia que os efeitos da inflação no varejo e no atacado podem forçar uma revisão no planejamento do Banco Central para o ano. “Isso, no limite, pode fazer com que o BC mude o ritmo do arrefecimento monetário programado para 2026.”

Paixão avalia que não deve haver mudança brusca na decisão imediata do Copom, mas antevê uma alteração importante na comunicação do BC. Para ela, o impacto mais imediato do conflito será no forward guidance (sinalização do BC sobre os próximos passos da política monetária) — não necessariamente na magnitude do corte desta reunião. “Isso pode ser uma mudança no comunicado, um comunicado de maior cautela”, afirma.

A diretora da consultoria observa que a proximidade do conflito com a reunião do Copom de março intensifica a incerteza sobre o próximo passo da autoridade monetária. Dois caminhos estão em discussão nos bastidores: a manutenção da taxa, caso o BC opte por “segurar essa queda” até dispor de mais informações, ou uma “redução ainda menor” do que o esperado — possivelmente abaixo de meio ponto percentual — para avaliar o impacto inflacionário do petróleo antes de avançar.

Antes da divulgação do IPCA-15 na sexta-feira (27) e dos ataques ao Irã, a probabilidade de um corte de meio ponto percentual na taxa Selic era de 83%, segundo os contratos de opções do Copom negociados na B3.

Sigu pondera que o “único motivo concreto” para o BC alterar drasticamente suas projeções seria um petróleo em níveis capazes de afetar a inflação de forma sistêmica. “No curtíssimo prazo, ainda não vejo isso como evidente”, avalia — sinalizando que o cenário-base de continuidade do ciclo de cortes permanece preservado, desde que o conflito não escale além do estágio atual.

“O BC deve adotar um tom mais conservador para evitar que a volatilidade e a pressão cambial desancorem as metas de inflação de longo prazo”, argumenta Eduardo Amorim, da Manchester Investimentos.

A dimensão eleitoral adiciona uma camada de complexidade. A inflação é um “vetor muito importante em termos de programas e propagandas eleitorais”, ressalta Cardoso, e o governo deve dedicar atenção redobrada a essa variável ao longo do primeiro semestre.

“Talvez essa complexidade se antecipe se as tensões internacionais se mantiverem”, alerta a economista da LCA.

Ganhadores e perdedores: o mapa setorial da bolsa com a guerra no Irã

No mercado de ações, a aversão ao risco penalizou o Ibovespa, que recuou para a faixa dos 188 mil pontos. A composição do índice, no entanto, oferece proteção relativa.

  • Óleo e gás: Petrobras (PETR4) e Prio (PRIO3) são as beneficiárias naturais da alta do Brent. Analistas da XP estimam que o rendimento do fluxo de caixa livre da Petrobras seria de cerca de 13% — condicionado à decisão sobre repasse de preços.

Paixão aponta que a concentração setorial do Ibovespa funciona como proteção ao investidor brasileiro. “Essas empresas ligadas ao petróleo acabam tendo uma performance positiva, que ajuda a reduzir a queda” do índice em dias de estresse geopolítico.

  • Exportadoras de commodities: O câmbio alto favorece a receita das exportadoras do agronegócio. O minério de ferro também pode ter os preços sustentados, uma vez que o Oriente Médio responde por 13% da produção global de pelotas.
  • Transporte e aviação: São os setores mais penalizados. O querosene de aviação já subiu 9,4% em março.
  • Agronegócio: Cenário misto. O câmbio alto favorece os exportadores, mas o Oriente Médio é destino estratégico para carnes e grãos brasileiros.

Paixão detalha o duplo risco para o setor: o Irã é fornecedor relevante de fertilizantes nitrogenados, e o encarecimento dos seguros de frete no Estreito de Ormuz tende a elevar os custos de plantio no Brasil.

Pelo lado das exportações, o conflito pode dificultar o escoamento de proteína animal e milho para a região — mercado que absorve um terço das exportações mundiais de fertilizantes. “Isso pode encarecer os custos e, além disso, a gente tem uma exportação grande do setor de carnes para o Oriente Médio”, alerta a analista.

Cardoso alarga o espectro de produtos brasileiros em risco. Além das carnes e grãos, tabaco e soja figuram entre os itens da pauta de exportação com destino à região.

“Os produtos agropecuários serão os maiores afetados” em termos de exportação caso o tráfego de mercadorias seja prejudicado pela insegurança internacional, avalia a economista. E essa retração no fluxo comercial pode afetar o superávit da balança comercial, reduzindo a oferta de dólares no país.

Há, ainda, um efeito positivo pouco discutido. Como o Estado brasileiro é um dos maiores acionistas da Petrobras, a alta do Brent pode melhorar as contas públicas. “Se a gente tiver um aumento no lucro dessa empresa, o Estado teria um recebimento de dividendos maior, o que influencia positivamente na questão fiscal”, observa Paixão.

O fator tempo: quando e se a tensão arrefece

Historicamente, crises no Oriente Médio têm impacto agudo, mas curto — de seis a oito semanas —, e o petróleo costuma devolver parte dos ganhos após o susto inicial.

O cenário de 2026, porém, traz um agravante adicional. O choque energético se sobrepõe a tarifas comerciais protecionistas nos Estados Unidos, criando terreno fértil para a estagflação: crescimento fraco com inflação persistente.

Sigu pondera que, se o conflito se mantiver no formato atual — sem atingir diretamente os Estados Unidos ou paralisar totalmente a produção —, o impacto global pode ser limitado. “Não é comparável ao que vivemos na pandemia de Covid-19”, avalia, sinalizando que o cenário-base ainda não configura uma ruptura sistêmica.

Cardoso compartilha do diagnóstico moderado no curto prazo. Se a crise for normalizada nas próximas semanas, o impacto sobre a inflação e os juros poderá ser absorvido sem grandes traumas estruturais, graças ao esforço dos produtores mundiais de petróleo que já trabalham para garantir volume na economia global. O ponto de inflexão, para a economista da LCA, é a duração: “tudo dependerá do amadurecimento desse conflito”.

“Se a guerra se transformar em um conflito de ocupação prolongada, as consequências serão estruturais”, alerta Simioni, da Blue3 Investimentos. O risco: juros globais elevados por muito mais tempo — e o Brasil pagando a conta.

Para o investidor, a recomendação é o retorno aos fundamentos. Fellipe Rabelo, da V2R Investimentos, resume em três palavras: “método, liquidez e diversificação”.

Sigu lembra que é preciso monitorar não apenas os desdobramentos militares no Oriente Médio, mas também as decisões em Brasília. “Existem políticas internas no Brasil para manutenção do preço da gasolina que podem afetar a lucratividade da Petrobras”, alerta. Em ano eleitoral, a contaminação do debate político por questões geopolíticas e religiosas representa um risco adicional que, segundo ele, “definitivamente não é positivo para o Brasil”.

“Geopolítica é, em grande medida, gestão de expectativas”, conclui o professor João Alfredo Lopes Nyegray, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Enquanto o mundo aguarda o próximo movimento no Oriente Médio, o Brasil ajusta suas velas para navegar em águas consideravelmente mais turbulentas.

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