Da mesma forma como o presidente americano, Donald Trump, alterna entre prometer uma saída rápida da guerra no Irã e ameaçar continuar bombardeando o país persa, o governo dos Estados Unidos tem posições ambíguas sobre a possibilidade de realizar uma operação terrestre contra o regime.
Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, publicada no domingo (29), Trump sugeriu que uma ação nesse sentido poderia ser realizada para ocupar a Ilha de Kharg, por onde passam 90% das exportações de petróleo do Irã.
“Talvez tomemos a Ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções”, disse Trump na entrevista. “Isso também significaria que teríamos que ficar lá [na Ilha de Kharg] por um tempo.”
Na terça-feira (31), o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, sinalizou que “nenhuma opção” na guerra, iniciada em 28 de fevereiro, está descartada.
“Não vamos descartar nenhuma opção. Não é possível travar e vencer uma guerra caso seja revelado o que se está disposto a fazer ou não, incluindo o envio de tropas para o terreno”, disse à imprensa.
Outros integrantes do governo americano foram mais cautelosos. Ao jornal The Washington Post, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o anunciado envio de mais 10 mil militares de infantaria ao Oriente Médio não significa que ocorrerá uma invasão terrestre ao Irã.
“É função do Pentágono fazer os preparativos necessários para dar ao comandante-em-chefe [Trump] a máxima flexibilidade. Isso não significa que o presidente tenha tomado uma decisão”, argumentou.
Por sua vez, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou na França na sexta-feira passada (27) que os Estados Unidos “podem atingir todos os seus objetivos [na guerra] sem tropas terrestres”.
Fontes do Pentágono ouvidas pelo Washington Post afirmaram que, caso uma operação terrestre seja realizada no Irã, não se trataria de uma ação em grande escala e provavelmente consistiria em ataques combinando forças de operações especiais e tropas de infantaria convencionais.
Segundo essas fontes, o governo Trump tem discutido as possibilidades de tomar a Ilha de Kharg, conforme comentado pelo presidente americano, e de ataques terrestres a áreas costeiras perto do estratégico Estreito de Ormuz, bloqueado quase totalmente pelo Irã devido à guerra, para localizar e destruir armas que possam atingir navios comerciais e militares. As autoridades ouvidas pelo Post estimaram que essa ação duraria entre “semanas” e “alguns meses”.
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Contando os reforços que já chegaram nas últimas semanas, estima-se que os Estados Unidos tenham hoje cerca de 50 mil militares no Oriente Médio.
Porém, Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), lembrou que apenas cerca de 17 mil desses militares são de tropas terrestres, o que provavelmente tornaria alguma operação terrestre no Irã “extremamente limitada”.
Também à Gazeta do Povo, o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, concordou com essa análise, ao destacar que o atual efetivo americano no Oriente Médio é insuficiente para uma grande operação terrestre, já que as forças do Irã têm 1,5 milhão de homens e uma “resiliente” capacidade de mísseis e drones.
Porém, Coutinho salientou que a Ilha de Kharg possui pequenas dimensões (22 km²) e fica a apenas 250 km do litoral da Arábia Saudita, aliado americano.
“Considerando isso, uma ação nesta ilha não pode ser descartada. A tropa mais apta para esta ação no momento atual seriam os paraquedistas, realizando um assalto aeromóvel a partir do litoral da Arábia Saudita, empregando helicópteros e aeronaves Osprey de pouso e decolagem vertical, desde que uma supremacia aérea fosse estabelecida e as ameaças de mísseis e drones iranianos pudessem ser contidas”, disse o analista.
Teixeira Moita afirmou que, além de Kharg, outra opção americana pode ser uma operação de forças especiais para retirada de ativos de alto valor do Irã, como urânio enriquecido, para inviabilizar o programa nuclear iraniano.
“Seria provavelmente algo pontual, a tomada do local onde haveria o estoque e fazer a retirada desse urânio. Agora, o problema é que retirar um material desse seria uma operação cara, levaria dias. Aí, já haveria outro problema, que seria a logística de uma operação nesse sentido, seria extremamente complexa”, disse o professor da Eceme.
EUA enfrentariam desafios para manter ilha estratégica no Irã
Caso a escolha de Trump seja a tomada de Kharg, os especialistas afirmaram que o maior desafio americano não seria tanto ocupar a ilha, mas mantê-la sob controle. Kharg está localizada a apenas 25 km do território iraniano continental e as tropas americanas que a ocupassem ficariam expostas a drones, artilharia, mísseis e foguetes disparados da costa.
“O Irã com certeza utilizaria muito armamento para, primeiro, produzir baixas americanas, porque isso repercutiria mal no público americano [em ano de eleições de meio de mandato]; e, segundo, para tornar o custo da presença americana na ilha cada vez mais caro, até o ponto de se tornar inviável”, afirmou Teixeira Moita.
Ele acrescentou que tomar a Ilha de Kharg, apesar de sua importância para o regime, não necessariamente levaria o Irã à mesa de negociação.
“O problema é que, com exceção do presidente do parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, que tem muito poder agora nas mãos, as figuras que estão na liderança iraniana são muito radicalizadas. Elas são bem mais radicais do que as figuras que foram mortas pelos israelenses e pelos americanos no primeiro dia de guerra. Então, não se levam tanto pelo lado econômico”, disse o professor da Eceme.
Coutinho alertou que a tomada de Kharg não traria nenhuma garantia de que o Estreito de Ormuz seria reaberto – a ilha fica a cerca de 650 km de distância – e, caso as instalações locais sejam danificadas ou destruídas numa batalha pela ilha, a consequente suspensão das exportações iranianas geraria uma grave disrupção na cadeia global de petróleo.
“Todos esses fatores somente agravariam a pressão política sobre Trump e elevariam a crise do mercado internacional a níveis insuportáveis”, enfatizou o coronel. “Normalmente, Trump cita a importância de ter boas cartas à mão. No momento atual, parece que ele não possui opções fáceis para jogar.”
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