VANESSA MORENO
DO REPÓRTERMT
O advogado Roberto Zampieri foi assassinado no dia 5 de dezembro de 2023, em frente ao seu escritório, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá. Dois anos depois, a devassa feita no celular dele após a morte ainda vem causando uma série de desdobramentos. Isso porque as investigações, que culminaram na deflagração de diversas fases da Operação Sisamnes, revelaram um robusto esquema de venda de sentenças, além da atuação de um grupo criminoso especializado em assassinatos mediante pagamento.
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Ainda em dezembro de 2023, a Polícia Civil de Mato Grosso pediu a quebra do sigilo telefônico do advogado para apurar se o assassinato tinha ligação com processos judiciais. O acesso aos dados do celular de Zampieri foi autorizado pelo juiz Wladymir Perri, então titular da 12ª Vara Criminal de Cuiabá. Posteriormente, o magistrado passou a ser alvo de uma reclamação disciplinar apresentada pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), sob a alegação de que o uso dos dados poderia violar a lei ao expor conversas entre o advogado e seus clientes, o que poderia resultar na anulação das provas colhidas.
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A viúva de Zampieri chegou a pedir na Justiça a devolução do aparelho celular, e o pedido foi concedido. No entanto, os dados extraídos do HD foram mantidos.
No âmbito da reclamação disciplinar contra Perri, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) solicitou o compartilhamento das provas colhidas no aparelho de Zampieri, sob a justificativa de utilizar apenas informações relacionadas a supostos vínculos indevidos entre o advogado e membros ou servidores do Poder Judiciário, já diante da suspeita de um esquema de venda de sentenças.
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), fato que deu início à Operação Sisamnes, deflagrada pela Polícia Federal e que já alcançou a 10ª fase.
Entre os principais personagens revelados no esquema de venda de decisões judiciais está o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, preso em novembro de 2024. A partir dele, as investigações identificaram que o esquema ultrapassou as divisas de Mato Grosso e alcançou o Superior Tribunal de Justiça (STJ), além de tribunais de Mato Grosso do Sul e poderes do estado de Tocantins.
Ao longo de 2025, a Polícia Federal constatou que Andreson transferiu milhões de reais para assessores de ministros do STJ, que tinha acesso antecipado a minutas de decisões e que ele, juntamente com Zampieri, praticava a chamada “venda de fumaça”, estratégia utilizada para impressionar clientes por meio de supostos vínculos com magistrados.
Preso na Penitenciária Central do Estado (PCE), em fevereiro deste ano, o lobista chegou a receber uma dieta especial, com itens como carne assada, damasco, salame fatiado, bolacha recheada, castanhas e mel, em razão de diabetes e de uma cirurgia bariátrica realizada em 2020.
Em março, ele precisou ser transferido para a Penitenciária Federal de Brasília, unidade de segurança máxima, por questões relacionadas à integridade física.
Em julho, Andreson apresentou piora no estado de saúde, perdeu cerca de 30 quilos e passou a cumprir prisão domiciliar para tratamento. Em novembro, foi preso novamente.
O esquema
As investigações da Polícia Federal identificaram uma rede estruturada envolvida no esquema de venda de sentenças no STJ e em tribunais estaduais. Andreson exercia influência em gabinetes de ministros, obtinha com exclusividade minutas de decisões e, em parceria com Zampieri, transformava processos judiciais em verdadeiros “leilões”.
Em conversas encontradas no celular do advogado e também do lobista, ambos compartilhavam minutas e combinavam valores. Para ocultar o repasse de dinheiro, simulavam a prestação de serviços advocatícios e de consultoria.
De acordo com relatório da PF, Andreson Gonçalves, por meio de uma empresa de transportes de fachada, estruturou um esquema de lavagem de dinheiro com auxílio de advogados, servidores do STJ, consultores jurídicos e outros lobistas, com o objetivo de ocultar movimentações milionárias.
Ele também atuava em conjunto com a esposa, Marian Ribeiro, apontada pelos investigadores como braço direito de Andreson.
No Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), o esquema resultou no afastamento de dois desembargadores: João Ferreira Filho e Sebastião de Moraes Filho, que se aposentou em 27 de novembro deste ano, antes mesmo de retornar ao cargo.
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O juiz de Vila Rica (a 1.131 km de Cuiabá), Ivan Lúcio Amarante, também foi afastado.
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Segundo as investigações, os magistrados mantinham relação de amizade íntima com Zampieri, que influenciava a atuação deles e oferecia vantagens indevidas em troca de decisões favoráveis em processos sob sua condução.
Ainda em 2025, outros personagens surgiram no curso das investigações. Entre eles, o advogado e ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), Ussiel Tavares, apontado pela Polícia Federal como possível intermediário no esquema de compra e venda de decisões judiciais. Conforme relatório da PF, ele teria atuado como emissário das transferências financeiras entre o doleiro Surrey Ibrahim Mohamad Youssef, de São Paulo, e Zampieri.
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A empresa Fource Gestão de Recursos, de Cuiabá, e seus sócios Haroldo Augusto Filho e Valdoir Slapak também entraram no radar da Polícia Federal, sendo apontados como integrantes do núcleo central do esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso e no STJ.
Segundo a PF, Haroldo tinha “influência direta” em gabinetes do STJ e mantinha relacionamento pessoal com a advogada Catarina Buzzi, filha do ministro do STJ Marco Buzzi. Ele também teria contratado Andreson e Zampieri para serviços ilícitos.
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No decorrer das investigações, em outubro deste ano, o delegado da Polícia Federal, Marco Bontempo, pediu para sair do comando das investigações sobre o esquema, alegando problemas de saúde decorrente de um excessivo volume de trabalho na Operação Sisamnes.
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Em uma das atualizações mais recentes do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin registrou, pela primeira vez, em despacho proferido no âmbito da Operação, que a Polícia Federal investiga a “potencial participação de autoridade com prerrogativa de foro” no esquema de venda de decisões do STJ.
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Além das divisas
A Operação Sisamnes também cumpriu mandados de busca e apreensão e de prisão contra o prefeito de Palmas (TO), Eduardo Siqueira Campos (Podemos). Ele foi apontado pela PF como responsável pelo vazamento de informações sigilosas das investigações, o que teria causado impacto direto nas operações policiais.
No Tocantins, pelo menos outras três pessoas foram presas, entre elas o advogado Thiago Marcos Barbosa de Carvalho, sobrinho do governador Wanderlei Barbosa (Republicanos).
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Segundo a Polícia Federal, a apuração revelou indícios de que informações confidenciais estariam sendo acessadas, articuladas e repassadas antecipadamente a investigados, com envolvimento de agentes públicos, advogados e operadores externos.
Pesa sobre o grupo a suspeita de uso de dados sensíveis para proteger aliados, frustrar ações policiais e construir redes de influência.
Vale lembrar que o conteúdo extraído do celular de Roberto Zampieri também levou, em 2024, ao afastamento de cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS): Sergio Fernandes Martins, presidente da Corte; Vladimir Abreu da Silva; Marco José de Brito Rodrigues; Sideni Soncini Pimentel; e Alexandre Aguiar Bastos. Todos foram submetidos ao uso de tornozeleira eletrônica.
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Nova prisão do lobista
Em outubro deste ano, o lobista Andreson Gonçalves, que estava em prisão domiciliar por problemas de saúde, voltou a ser alvo da Polícia Federal, que cumpriu mandado de busca e apreensão na casa dele. Durante a ação, o sargento aposentado da Polícia Militar Dejair Silvestre dos Santos foi preso por tentar atrapalhar as investigações.
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Ao perceber a presença dos federais, o militar correu e tentou esconder um celular em um dos banheiros do imóvel. Informações indicam que Dejair fazia a segurança da residência de Andreson.
Em novembro, o lobista foi preso novamente. Não há informações se a prisão foi mantida, já que o inquérito tramita sob sigilo.
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Comando C4
A análise do celular de Zampieri também levou a Polícia Federal a revelar, neste ano, a existência de um grupo criminoso denominado Comando C4 – Comando de Caça Comunistas, Corruptos e Criminosos, com atuação voltada à espionagem e assassinatos mediante pagamento.
Segundo a PF, cinco integrantes do grupo participaram da morte do advogado. São eles: Aníbal Manoel Laurindo, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Gilberto Louzada da Silva. Todos foram alvos de mandados de prisão em maio, durante a 7ª fase da Operação Sisamnes.
A descoberta do grupo criminoso ocorreu a partir de anotações encontradas em uma agenda de Etevaldo Caçadini, que é coronel do Exército aposentado. Os registros indicam que o Comando C4 possuía estrutura organizada, com divisão de tarefas.
O grupo dispunha de treinamento militar e armamento pesado, incluindo cinco fuzis, 15 pistolas com silenciador, munições, lança-rojão AT4 de ombro, minas magnéticas, explosivos com detonação remota e dois fuzis com lançadores de dardos, do tipo utilizado para captura de animais.
Também utilizavam veículos modelo Doblô para sniper móvel, carros de pequeno porte, placas frias, rastreadores veiculares, entre outros equipamentos.
Na agenda constavam ainda os valores cobrados para execução dos crimes, definidos conforme o grau de autoridade das vítimas: pessoas comuns, R$ 50 mil; deputados, R$ 100 mil; senadores, R$ 150 mil; ministros e membros do Judiciário, R$ 250 mil.
Os nomes dos ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin também apareceram nas anotações. No entanto, não foi possível identificar se eles estavam sendo monitorados ou se havia planejamento de atentados.
Julgamento dos assassinos
Em outubro deste ano, o Juízo da 12ª Vara Criminal de Cuiabá determinou que os réus Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri pela morte de Roberto Zampieri.
Conforme denúncia do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Antônio Gomes da Silva, que estava disfarçado de padre no dia do assassinato, foi o autor dos disparos que atingiram o advogado em frente ao escritório. O crime teria contado com o apoio de Hedilerson Fialho Martins Barbosa, ambos mediante pagamento e promessa de recompensa feita por Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas.
Ainda segundo a denúncia, o homicídio teria sido encomendado por Aníbal Manoel Laurindo, motivado por uma disputa de terras.
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