A abstenção, geralmente tratada como um detalhe nas análises eleitorais, voltou ao centro do debate em uma apresentação feita pelo cientista político e economista Mauricio Moura, fundador da IDEIA Big Data, durante evento do UBS com empresários e clientes em São Paulo, nesta quarta-feira (26).
Moura classificou a abstenção como “o dado mais subestimado” das eleições brasileiras e um dos que mais alteram o resultado.
Segundo o pesquisador, o perfil dos eleitores que deixam de comparecer às urnas é consistente desde 1989 e segue um padrão claro: 55% dos abstencionistas não concluíram o ensino fundamental. É um grupo volumoso, que corresponde a cerca de 40% do eleitorado brasileiro, e também um segmento politicamente definido.
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“Esses eleitores têm uma característica mais próxima de votar no Lula. Nesse grupo, Lula ganhava dois terços”, disse Moura. Quando parte desse contingente não comparece, ocorre uma mudança imediata na balança eleitoral: cresce o peso relativo do eleitor mais escolarizado e de renda mais alta, historicamente menos simpático ao PT.
Em 2022, avalia Moura, foi esse movimento que encolheu a vantagem de Lula à medida que a eleição se aproximava. “Lula estava 10, 12 ou 14 pontos à frente nas pesquisas, e eu dizia: isso vai diminuir, porque o perfil mais pobre não vai aparecer para votar”, lembrou.
O pesquisador trata o fenômeno como uma “armadilha estatística”: as pesquisas captam intenções de voto, mas não antecipam corretamente quem não comparecerá.
Segundo ele, essa dinâmica se repete eleição após eleição e gera frustração entre investidores e o mercado financeiro. “A Bolsa vai subir na segunda-feira, todo mundo vai ficar feliz, e depois eu vou ter que explicar por que as pesquisas erraram”, ironizou.
Por essa razão, afirma Moura, o PT precisa de folgas maiores nas pesquisas para compensar a abstenção do seu grupo de maior apoio. “O PT tem que ter gordura. Ele precisa de uma margem na aprovação e na intenção de voto para compensar o perfil de abstenção”, disse.
Segundo o pesquisador, o comportamento do eleitor de baixa renda ajuda a explicar por que o partido nunca venceu uma eleição presidencial no primeiro turno. A demora no comparecimento desse eleitorado, somada à volatilidade do segundo turno, historicamente reduz margens que parecem confortáveis no início.
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Na prática, uma vantagem de cinco ou seis pontos nas pesquisas pode ser ilusória. Se o comparecimento dos eleitores mais pobres ficar abaixo da média, essa distância cai rapidamente. Moura e outros analistas defendem, por isso, que acompanhar apenas a intenção de voto é insuficiente. O foco, dizem, deve estar no engajamento de quem mais tende a se abster, sobretudo nas periferias urbanas e nos extremos de renda.
O desafio do governo, conclui o pesquisador, não é conquistar novos eleitores, mas garantir que seus próprios apoiadores cheguem até a urna.
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