Dólar acima de R$ 5, queda da bolsa e avanço dos juros futuros marcaram a reação do mercado aos episódios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A divulgação do áudio da conversa entre os dois, na quarta-feira (13), e a publicação, nesta terça-feira (19), da nova pesquisa AtlasIntel/Bloomberg desencadearam reação imediata no mercado financeiro. A queda de 6 pontos percentuais do senador impactou diretamente as apostas eleitorais monitoradas pela Faria Lima.
À pesquisa somou-se a revelação da visita de Flávio a Vorcaro em prisão domiciliar, feita pelo próprio candidato durante entrevista coletiva após reunião com lideranças do PL.
No primeiro episódio, relacionado ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, o mercado cambial foi um dos primeiros a reagir. Após a notícia divulgada pelo The Intercept, o real desvalorizou mais de 2% em um único dia.
O dólar ultrapassou a barreira psicológica dos R$ 5,00, o Ibovespa recuou e os juros futuros avançaram, em um movimento interpretado por analistas como aumento do risco político.
Até o começo da tarde desta terça-feira (19), após a divulgação da pesquisa AtlasIntel, o Ibovespa registrava queda entre 1% e 1,3%, operando na faixa dos 174 mil pontos, enquanto o dólar comercial subia cerca de 0,5%, cotado próximo de R$ 5,03.
Investidores reagem à perda de previsibilidade econômica
Para o consultor financeiro empresarial Carlos Henrique, “o mercado vinha precificando parcialmente a hipótese de fortalecimento de uma candidatura de oposição com perfil percebido como mais alinhado à agenda liberal e à contenção da expansão fiscal”.
“Quando um evento reputacional reduz a viabilidade eleitoral desse candidato, ocorre ajuste automático dos prêmios de risco”, afirma.
Na mesma linha, Rodrigo Miotto, da Nippur Finanças, afirma que, embora a oscilação também reflita fatores externos, como a tensão entre Estados Unidos e Irã, o mercado reagiu rapidamente nos dois casos porque já vinha incorporando parcialmente a possibilidade de alternância de poder.
Segundo ele, a reação expôs um desconforto já existente do mercado financeiro com a condução econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “O mercado não está satisfeito com a gestão atual”, afirmou.
O movimento também coincidiu com uma saída mais intensa de capital estrangeiro da bolsa brasileira, o que, segundo Miotto, reforça a percepção de aumento do risco eleitoral.
“Os investidores estrangeiros acabaram realizando lucro e saindo da B3. Se a gente observar os últimos 17 dias, o estrangeiro está retirando dinheiro da bolsa brasileira. A gente vinha de quase 70 dias de fluxo positivo e agora já são 17 dias consecutivos de fluxo negativo”, disse.
Segundo ele, esse fluxo negativo também ajuda a explicar a pressão recente sobre o câmbio. “Isso faz com que o dólar fique mais escasso aqui e, por consequência, volte a subir. É o que a gente tem visto nos últimos dias. O dólar rompeu a barreira dos R$ 5 e segue cotado acima disso”, afirma.
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Polymarket é o termômetro da Faria Lima
Além das mesas de operação tradicionais, o episódio também impactou diretamente o Polymarket, plataforma de apostas em probabilidades de eventos futuros (prediction market) por meio de criptomoedas.
O site se consolidou nos últimos anos como uma espécie de termômetro informal do humor político global e já movimenta cerca de US$ 79 milhões no mercado relacionado à eleição presidencial brasileira de 2026.
Há cerca de duas semanas, Flávio Bolsonaro liderava as apostas, com 44% de probabilidade implícita de vitória, contra 37% de Lula. Na véspera da divulgação do áudio, a diferença já havia diminuído: Flávio tinha 41%, enquanto Lula aparecia com 40%.
Após a publicação do áudio, porém, as apostas em Flávio Bolsonaro caíram 13 pontos percentuais em apenas uma sessão, chegando a 28% no pior momento do dia. Lula liderava o mercado com 44%, enquanto o senador aparecia estabilizado em torno de 31%.
Com a divulgação da nova pesquisa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece como favorito para vencer a eleição presidencial, com probabilidade implícita em torno de 45%, enquanto Flávio Bolsonaro oscila entre 28% e 30%.
Fiscal está no centro da preocupação
Para o sócio e fundador da Ipê Avaliações, Fábio Murad, a reação do mercado não ocorreu apenas por causa do conteúdo do áudio, mas pela incerteza. “O mercado não está precificando apenas os episódios”, diz. “Está precificando, sobretudo, a perda de previsibilidade eleitoral.”
Flávio Bolsonaro, segundo ele, vinha sendo visto por parte dos investidores como uma candidatura de oposição com potencial de reorganizar a agenda econômica a partir de 2027.
“O mercado passou a operar em modo de eleição antecipada, reagindo não apenas a indicadores econômicos, mas também à força relativa dos nomes capazes de representar uma agenda fiscal mais previsível”, disse.
Na avaliação de Murad, as dúvidas em relação ao cumprimento das metas fiscais, ao crescimento da dívida pública, à expansão de despesas obrigatórias e à dificuldade política para entregar ajuste estrutural nunca saíram do radar. “Quando uma candidatura percebida como alternativa ao atual modelo econômico perde força, o mercado reprecifica esse risco”, afirmou.
A preocupação não é necessariamente partidária, mas ligada à capacidade de sustentar uma agenda considerada fiscalmente previsível. “Trata-se de uma avaliação pragmática: quem terá força política para sustentar uma agenda de controle de gastos, previsibilidade tributária e melhora da relação dívida/PIB?”, disse.
O risco de mais “bondades” de Lula
Miotto cita um fator adicional: o de que o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro contribua para que o governo se sinta ainda mais confortável para ampliar gastos públicos até outubro deste ano.
“Também traz uma segurança para o atual governo adotar uma política ainda mais expansionista, gastando mais até a eleição para construir uma reeleição”, afirmou.
“A gente já está com um nível de endividamento em relação ao PIB altíssimo. Se continuar com essa agenda e uma segurança de reeleição, pode ser que piore ainda mais até as eleições”, disse.
Parte da atratividade de Flávio Bolsonaro junto ao mercado, segundo ele, vem justamente do discurso econômico defendido pelo senador.
“As promessas que Flávio vinha trazendo eram de privatização, controle dos gastos, mais ou menos o que o mercado quer ouvir e o que quem acompanha os números econômicos do país vem buscando”, afirmou.
Fragmentação da direita e busca por alternativas a Flávio
A revelação dos áudios entre Flávio e Vorcaro também reacendeu discussões sobre a reorganização do campo da direita para 2026. Na avaliação dos analistas, o enfraquecimento do senador pode fragmentar a centro-direita e reabrir espaço para outros nomes do campo conservador.
“O racha na centro-direita também está sendo precificado”, afirma Miotto.
A reação do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que classificou a atitude de Flávio Bolsonaro como “imperdoável”, ampliou o alerta no mercado sobre uma possível divisão da direita em um eventual segundo turno — cenário que poderia favorecer a reeleição de Lula.
No próprio Polymarket, candidatos alternativos começaram a ganhar espaço logo após a crise. O influenciador e ativista Renan Santos, por exemplo, saltou de 5% para 10% das apostas após a divulgação do áudio. Atualmente, está com 7%.
Para Murad, a principal dúvida dos investidores agora é quem conseguirá ocupar o espaço de uma candidatura vista como capaz de defender uma agenda econômica considerada mais previsível.
“O problema para os investidores não é apenas quem será candidato, mas se haverá uma alternativa com força política suficiente para enfrentar o desequilíbrio das contas públicas”, diz.
Enquanto essa definição não aparece, dólar, bolsa e juros longos devem continuar sensíveis ao noticiário político, para além dos fundamentos econômicos de curto prazo, avalia o economista.
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