A manifestação da direita na Avenida Paulista, neste domingo (1º), serviu como termômetro não apenas da mobilização bolsonarista, mas também da estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Pré-candidato à Presidência, o senador adotou um discurso menos confrontacional com o Supremo Tribunal Federal (STF) do que aliados que o antecederam no palanque, sinalizando uma tentativa de reposicionamento do bolsonarismo para 2026.
Flávio concentrou suas críticas no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e reforçou a narrativa de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso no Complexo da Papuda por tentativa de golpe de Estado. Prometeu que, se eleito, irá anistiá-lo e afirmou que, em janeiro de 2027, o pai “vai pessoalmente subir a rampa do Palácio do Planalto”.
Ao tratar do Judiciário, o senador evitou ataques nominais a ministros da Corte. Falou em censura nas redes sociais, operações da Polícia Federal contra “pessoas inocentes” e uso de tornozeleiras eletrônicas, mas não citou o STF diretamente na abertura do discurso.
No trecho final, defendeu o impeachment de ministros que “descumpram a lei”, porém afirmou que “o nosso alvo nunca foi o Supremo” e que a instituição é “fundamental para a democracia”.
O tom contrastou com o de outros participantes do ato. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) mencionou o ministro Alexandre de Moraes pelo nome e afirmou que o destino do magistrado “não é o impeachment, é a cadeia”.
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O pastor Silas Malafaia também fez críticas duras ao ministro. A diferença de abordagem evidenciou uma divisão estratégica sobre como enfrentar o Judiciário em ano pré-eleitoral.
A mudança de tom não é trivial. Durante o governo de Jair Bolsonaro, manifestações de rua foram frequentemente utilizadas como palco para ataques diretos ao STF, elevando o grau de tensão institucional.
Ao modular o discurso, Flávio preserva a pauta central da base — anistia e libertação do pai —, mas reduz o embate frontal com a Corte, num movimento que pode buscar ampliar sua aceitação para além do núcleo mais radicalizado.
Acenos e disputa interna
O senador também dedicou parte relevante da fala a acenos políticos. Agradeceu nominalmente ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); ao prefeito Ricardo Nunes (MDB); ao governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo); e ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD). A estratégia reforça a tentativa de construir uma imagem de articulação ampla dentro da direita.
O gesto ocorre em meio a ruídos no campo bolsonarista. A convocação do ato por Nikolas Ferreira, com o mote “Fora Lula, fora Moraes e fora Toffoli”, foi interpretada por aliados como um deslocamento do foco da anistia, bandeira considerada central pelo grupo mais fiel ao ex-presidente.
Nas últimas semanas, divergências vieram a público. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro cobrou apoio explícito da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e de Nikolas à pré-candidatura de Flávio. A reação de aliados e a mobilização da militância nas redes ampliaram a percepção de disputa por protagonismo dentro do PL e do entorno do ex-presidente.
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Ao afirmar no palanque que o ato “não é eleitoral” e que os pré-candidatos presentes “não estão disputando votos”, Flávio buscou reduzir a leitura de competição interna. A fala ocorre enquanto seu nome ainda enfrenta resistências e enquanto lideranças como Tarcísio mantêm capital político relevante entre eleitores conservadores.
Teste de viabilidade
O discurso na Paulista indica que Flávio tenta equilibrar duas frentes: manter fidelidade à narrativa bolsonarista e, ao mesmo tempo, suavizar o confronto institucional para ampliar sua viabilidade eleitoral. A defesa do impeachment de ministros foi mantida, mas enquadrada como instrumento institucional, não como embate direto com a Corte.
O movimento sugere a leitura de que a disputa de 2026 exigirá mais do que mobilização de rua. Para além da militância, a candidatura precisará dialogar com eleitores preocupados com estabilidade institucional e governabilidade.
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A manifestação mostrou que há espaço para discursos menos duros dentro da base. Ao optar por uma postura menos beligerante, Flávio testa se consegue se apresentar como herdeiro político do pai sem reproduzir integralmente a estratégia de confronto que marcou o ciclo anterior.
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