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Sócio minoritário aponta “fatos graves” na condução da Ligga Telecom por Nelson Tanure

O sócio minoritário da operadora Ligga Telecom, Agnaldo Bastos Lima, afirma haver “fatos graves” que, “em tese, significam condução desastrosa dos negócios” da empresa por parte do empresário Nelson Tanure, investigado pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), por possível ligação com Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master.

Segundo Lima, tais fatos devem ser levados em consideração por eventuais interessados na aquisição da companhia “para prevenção de direitos e responsabilidades”. A Ligga Telecom mantém negociações para possível venda da operação para a operadora Brasil Tecpar.

As afirmações constam de notificação extrajudicial enviada à Ligga e à BP Participações S.A. – empresa de Tanure que controla a operadora de telecomunicações, com 95,87% das ações – pela SR22 Administradora de Bens e Participações Societárias S.A., que detém 4,13% de participação na Ligga e da qual Agnaldo Lima é o único acionista.

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A marca Ligga substituiu a antiga Copel Telecom, que pertencia à estatal Companhia Paranaense de Energia (Copel) e foi a leilão na B3 em novembro de 2020. A operação foi adquirida por Tanure por meio do fundo Bordeaux Participações, do qual era controlador, por R$ 2,4 bilhões.

Lima recebeu 4,12% das ações da companhia em 2022, passando a ser sócio minoritário, no processo em que a Ligga adquiriu uma empresa de sua propriedade, a Nova Fibra Telecom S.A.

Em outubro do ano passado, as ações em nome de Lima foram transferidas integralmente para a pessoa jurídica SR22 Administradora de Bens e Participações Societárias, da qual ele é o único acionista.

Na mesma ocasião, o fundo Bordeaux Participações foi substituído no quadro societário pela BP Participações S.A. em razão da incorporação reversa do fundo pela Ligga.

“Há fatos graves que merecem a devida atenção de V. Sas., de potenciais interessados na aquisição da Ligga e do público em geral, fatos estes que demandam esclarecimentos, seja porque, em tese, significam desastrosa condução dos negócios da Ligga, seja porque devem ser levados em consideração por eventuais interessados na aquisição da Ligga, para prevenção de direitos e responsabilidades”, argumenta Lima na notificação.

R$ 1 bilhão levantado em debêntures não teria sido investido em infraestrutura

No documento, encaminhado na última quinta-feira (29) e ao qual a Gazeta do Povo teve acesso, um dos principais pontos levantados pelo sócio minoritário diz respeito à destinação de recursos captados pela Ligga por meio da emissão de debêntures incentivadas, que superaram R$ 1 bilhão.

De acordo com a notificação, há indícios de que parcela relevante desses recursos não foi investida em infraestrutura, finalidade que justificaria o incentivo fiscal associado a esse tipo de título.

O documento afirma que parte significativa do montante teria sido aplicada no Banco Master, instituição que seria liquidada pelo Banco Central (BC), e que tais aplicações teriam beneficiado também a BP Participações.

A SR22 sustenta que, se confirmadas, essas operações poderiam caracterizar desvio de finalidade dos recursos e gerar impactos para investidores, credores e para o Fisco, em razão do uso de incentivos fiscais sem a correspondente realização de investimentos.

Apesar de dívidas, mais de R$ 400 milhões teriam sido investidos no Master

Ainda de acordo com o documento, apesar da captação bilionária a Ligga passou a enfrentar inadimplência com fornecedores, além de apresentar quadro de caixa “estrangulado”, o que, segundo o notificante, contrasta com o fato de mais de R$ 400 milhões terem sido direcionados a aplicações financeiras no Banco Master, que hoje seriam irrecuperáveis.

Na semana passada, reportagem da Gazeta do Povo mostrou que os recursos do caixa da Ligga foram utilizados para aplicação em cédulas de crédito bancário (CCBs) da instituição recentemente liquidada pelo BC.

“A notificante, aturdida com a perspectiva de que, dos mais de 1 bilhão de reais em debêntures captados mediante endividamento da Ligga e não investidos nela, 400 milhões de reais teriam sido investidos no Banco Master e seriam virtualmente irrecuperáveis, quer acreditar que tal absurdo investimento no Master não se deu para que fosse obtido financiamento para outros negócios por Sr. Nelson Tanure, controlador da acionista majoritária ora notificada BP”, diz trecho do texto.

“Será realmente aterrador se tal informação se confirmar, mormente à vista das informações que circulam na mídia no sentido de que Sr. Nelson Tanure seria, conforme tem sido ventilado pela mídia, sócio oculto do falimentar Banco Master.”

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Documento alega violação de acordo por falta de transparência sobre venda da Ligga

Lima, por meio da SR22, afirma ainda não ter recebido informações adequadas sobre as negociações envolvendo a venda da Ligga, apesar de solicitá-las desde o dia 5 de dezembro de 2025.

O sócio afirma que o processo de negociação estaria sendo conduzido sem observância das regras do acordo de acionistas, incluindo cláusulas que preveem mecanismos formais de solução de divergências e direitos do acionista minoritário em caso de alienação de controle. Segundo ele, não lhe foi concedido acesso a data room, relatórios, pareceres técnicos ou jurídicos que embasariam a operação.

“Até o presente momento, a notificante SR22 vem sendo alijada de todo o processo de alienação, respectivas conversações, etc. Em outras palavras, a SR22 vem sendo, como tem sido habitual em sua condição de acionista minoritária, escanteada acerca da negociação quanto à venda da Ligga e de todas as informações concretas relacionadas a tal operação”, diz o documento.

“Essa sonegação de informações é uma constante, infelizmente: há mais de ano, solicitações de informações por e-mail, prestações de contas, etc., são constantemente ignoradas pela notificada. A notificante, que não é administradora e, assim, não tem a necessária visibilidade que lhe deveria ser dada acerca dos atos da administração, é completamente ignorada em seus direitos de acionista.”

A cláusula sexta do acordo de acionistas da Ligga, anexada à notificação, prevê um procedimento de 30 dias para tentativa de solução consensual de divergências, etapa que, segundo o notificante, não teria sido observada. Conforme o contrato, sem um consenso após o fim do prazo, a SR22 tem o direito de retirar-se da companhia, com a opção de compra da totalidade das ações com prioridade pela BP.

Sócio dá prazo de 5 dias para resposta de Tanure e Ligga

No documento, o sócio dá o prazo de cinco dias corridos, ou seja, até esta terça-feira (3) para uma resposta, destacando haver divergência de sua parte quanto à condução dos negócios e permanecer aberta a possibilidade de adoção de medidas judiciais e regulatórias, inclusive junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ao Ministério Público, caso as irregularidades apontadas não sejam sanadas.

Procurados, a defesa de Tanure e a Ligga Telecom não responderam sobre o teor da notificação até o momento da publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso haja alguma manifestação.

Em manifestações públicas anteriores, Tanure negou qualquer relação societária com o Banco Master e afirma que todas as suas relações com a instituição foram lícitas e apenas na condição de cliente.

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