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A liga da justiça

LUCIANO VACARI

Em 1960 a DC COMICS, uma das maiores e mais antigas editoras de histórias em
quadrinhos do mundo, lançou a liga da justiça, o que se tornaria um sucesso
mundial entre os leitores. Personagens como o Flash, o Lanterna Verde e o
Aquaman, travavam uma luta eterna com os mais destemidos vilões do universo,
como o Coringa e o chefe da legião do mal, Lex Luthor.

Os heróis e vilões são outros, mas passados quase 70 anos, o mundo ainda
vive uma constante batalha em busca de poder, mas dessa vez é o poder
econômico.

Vamos falar sobre um negócio que move bilhões: a carne bovina. E não é
qualquer carne, mas aquela que tem destino certo para a mesa de um gigante:
a China, onde o país se consolidou, há alguns anos, como o maior comprador
mundial do produto, um título que muda toda a dinâmica do mercado global.
São bilhões de dólares em carne cruzando os oceanos, onde a China, com sua
população enorme e crescente poder de consumo, não pode dar chance ao azar e
qualquer erro na rota ou na estratégia pode gerar um tremendo prejuízo
econômico. É aí que as salvaguardas entram.

No final de 2025 os chineses anunciaram que vão controlar os volumes de
carne bovina importado, na forma de cotas, e fez uma distribuição entre os
seus principais fornecedores, cabendo ao Brasil um volume total de 1 milhão
e 100 mil toneladas. Caso esse volume seja atingido, incidirá sobre o
excedente uma sobretaxa de 55%.

Pronto, mais do que depressa houve um chamado para uma reunião da liga da
justiça!

O encontro, que aconteceu no início de janeiro, tratou exclusivamente de um
ponto, como vamos dividir a cota que a China impôs ao país, sem comprometer
a segurança planetária, ou seja, o grande negócio que é a exportação de
carne bovina.

Entre gritos e ameaças, chegaram a um termo, mas porém, como sempre tem um
porém, os excluídos não gostaram da divisão, e uma nuvem negra surgiu no
horizonte quando alguém perguntou, mas isso é legal? E não precisa ser
nenhum super herói para saber que isso é uma prática bem conhecida no mundo
dos negócios, o cartel.

O assunto, lógico, chegou rapidamente ao conhecimento das autoridades, que
diante do quilate dos envolvidos, busca incessantemente encontrar uma
solução. Mas cá entre nós, isso seria necessário?

Qualquer solução apresentada passa diretamente por uma clara intervenção na
lógica do livre comércio, afinal, um ato oficial que traga limites para o
comércio é uma intervenção. Ainda mais quando, neste caso específico, a
China deixou claro que a imposição da cota é dela, e a gestão da cota também
é dela, ou seja, não resta muita coisa para o Brasil fazer.

Algum iluminado até poderia sugerir algo parecido com a cota Hilton, ou usar
como referência os volumes exportados por cada planta exportadora no ano de
2025, mas isso só teria efeito dentro dos limites nacionais, afinal, a
gestão da cota é da China.

Mas qual o problema disso tudo? O grande problema é que a China, se valendo
da sua importância no mercado mundial, impôs unilateralmente medidas que
sim, afetarão os exportadores, e cabe justamente aos exportadores, encontrar
medidas, métricas e soluções que contemplem a manutenção rentável do
negócio.

Simples assim, de maneira transparente e legal.

Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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