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Navio chinês atraca no RJ e Conselho de Medicina pede explicações sobre serviços prestados

Um navio-hospital chinês atracado no Rio de Janeiro tem chamado a atenção da população fluminense e também levantado questionamentos sobre os serviços prestados na embarcação. Segundo publicação oficial da Embaixada da China no Brasil, a embarcação oferece “intercâmbio de conhecimentos, treinamentos conjuntos e atividades culturais”. Mas o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ) quer esclarecimentos sobre a possibilidade de o navio Silk Road Ark oferecer atendimentos médicos à população e por isso oficiou a Secretaria de Estado de Saúde na segunda-feira (12) em busca de esclarecimentos. A embarcação ficará no RJ até a próxima quinta-feira (15).

O CREMERJ deu prazo de 72 horas para resposta e fundamenta o pedido na Lei nº 3.268/1957 e nas normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), que determinam a fiscalização de qualquer ato médico realizado no país, inclusive em missões humanitárias, acordos de cooperação internacional ou ações de cunho diplomático.

No ofício, ao qual a Gazeta do Povo teve acesso com exclusividade, o Conselho questiona se há, de fato, oferta de serviços médicos, quem é o público atendido, se existe autorização formal das autoridades brasileiras e se os profissionais estrangeiros estão devidamente habilitados para exercer a medicina no Brasil. Também cobra esclarecimentos sobre o cumprimento da Resolução CFM nº 2.216/2018, que exige registro — ainda que temporário — de médicos estrangeiros em Conselhos Regionais, além da indicação de responsável técnico inscrito no CRM e a vedação expressa de atuação sem registro.

Questionada sobre o caso, a Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (SES-RJ) informou que “não está sendo realizado atendimento médico no navio” e que a visita é somente de “caráter diplomático”. Segundo a secretaria, “os procedimentos médicos que podem ser realizados se referem à capacidade do navio para esse tipo de ação, de caráter humanitário, em determinadas situações, por diversos países. No Rio, nessa ocasião, não está e nem haverá atendimento médico”. A pasta da Saúde não soube informar se o ofício já havia sido ou não recebido pela gestão estadual.

O CREMERJ também encaminhará ofício à Marinha do Brasil, responsável pela autorização e fiscalização da presença de embarcações estrangeiras em águas e portos nacionais.

A reportagem entrou em contato com a Marinha, por e-mail, em busca de mais informações sobre o navio, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto.

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Fiscalização em andamento e ausência de comunicado formal

Em entrevista à Gazeta do Povo, o médico Raphael Câmara, conselheiro do CREMERJ e do Conselho Federal de Medicina (CFM), afirmou que, até o momento, não há confirmação sobre a ocorrência de atendimento médico à população brasileira no navio-hospital chinês.

Segundo ele, as primeiras informações indicam que a presença do Silk Road Ark no Rio de Janeiro estaria restrita a atividades de intercâmbio institucional, envolvendo a Marinha do Brasil, médicos brasileiros e a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, sem oferta direta de serviços assistenciais à população.

“A informação inicial que nós recebemos é que não vieram para fazer atendimento da população. Em princípio, trata-se de um navio chinês em atividade de inter-relação com a Marinha brasileira, com médicos brasileiros e com a Secretaria de Estado de Saúde, mas sem atendimento algum”, afirmou.

Apesar disso, Câmara destacou que o CREMERJ iniciou fiscalização in loco exatamente para verificar se essa versão corresponde à realidade. “Obviamente estamos indo fiscalizar para checar se há atendimento ou não”, disse.

O conselheiro também afirmou que não houve qualquer comunicado formal ao CREMERJ sobre a atuação do navio. “Ao Conselho Regional de Medicina, zero comunicado. As tratativas foram feitas com a Secretaria de Estado de Saúde, e nós temos esse ofício”, explicou.

Diante da ausência de confirmação de atendimentos, Câmara ponderou que, neste momento, não é possível estabelecer paralelo com o programa Mais Médicos ou com a atuação de médicos cubanos no Brasil. “Sem atendimento, não parece ter relação alguma com o caso cubano ou com o Mais Médicos. São militares chineses, e é comum esse tipo de visita por temporada, inclusive com intercâmbio institucional”, afirmou.

O conselheiro ressaltou, no entanto, que a posição do Conselho poderá ser revista caso a fiscalização identifique a realização de atos médicos.

Governo do Rio realizou recepção oficial e sinalização diplomática 

Antes da notificação do CREMERJ, o governo do Rio de Janeiro recebeu oficialmente a delegação chinesa responsável pelo Silk Road Ark. Em audiência realizada na sexta-feira (9), na sede do Executivo fluminense, a secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, representou o governador Cláudio Castro (PL-RJ) na recepção ao contra-almirante e comissário político da Marinha do Exército de Libertação Popular da China, capitão-sênior Fang Jinsong.

O encontro marcou formalmente a chegada do navio ao Rio como parte da 11ª Missão Harmony, iniciativa criada em 2010 pelo governo chinês, com o objetivo declarado de fortalecer relações internacionais por meio da cooperação em saúde.

De acordo com a SES-RJ, a edição atual da missão busca oferecer serviços médicos humanitários, atendimentos, cirurgias e capacitação profissional no Pacífico Sul e na América Latina. Mas, segundo a pasta, não há atendimentos médicos dentre as atividades oferecidas no Rio de Janeiro.

A embarcação está atracada no Píer Mauá, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), até o dia 15 de janeiro, período em que, segundo o governo estadual, haverá intercâmbio profissional e científico.

“Este encontro é uma experiência única para conhecermos novas tecnologias e grandes investimentos que podem ser feitos em saúde. Nos próximos dias, pretendo conhecer a embarcação, que conta com 14 departamentos clínicos e pode realizar mais de 60 tipos de procedimentos médicos”, afirmou a secretária Claudia Mello.

Do lado chinês, Fang Jinsong destacou a receptividade brasileira e o simbolismo da cooperação bilateral. “Vamos construir de mãos dadas um futuro compartilhado China-Brasil de forma mais justa e sustentável”, disse

A reunião contou ainda com representantes das áreas de energia, relações internacionais e vigilância sanitária do governo fluminense, além de uma ampla delegação chinesa composta por autoridades militares, diplomatas e representantes médicos da missão.

De acordo com a postagem da Embaixada da China no Brasil, “o navio-hospital partiu de Quanzhou, na província de Fujian, no sudeste da China, em 5 de setembro de 2025. A Missão Harmony-2025 marca a 11ª edição da Missão Harmony desde 2010 e a primeira missão internacional do “Silk Road Ark”, o segundo navio-hospital padrão de alto-mar de classe 10.000 toneladas projetado e construído na China. A missão de 220 dias, a mais longa da série, fará com que o navio visite cerca de uma dúzia de países, sendo o Brasil o primeiro destino na América do Sul”.

O navio e a Rota da Seda: diplomacia, poder e influência

O Silk Road Ark não é apenas um navio-hospital. Seu nome remete diretamente à Belt and Road Initiative (BRI) — a chamada Nova Rota da Seda, principal projeto geopolítico da China no século XXI. A iniciativa reúne dois grandes eixos: o Cinturão Econômico da Rota da Seda (terrestre) e a Rota da Seda Marítima do Século 21, ambos voltados à expansão logística, comercial e estratégica chinesa.

Inspirada nas antigas rotas comerciais que ligavam o Oriente ao Império Romano, a BRI busca conectar a China a países da Ásia, Europa e África por meio de investimentos em infraestrutura, portos, ferrovias, energia e logística. Na prática, o projeto amplia mercados para a indústria chinesa, fortalece cadeias de suprimento e aumenta a projeção política e cultural de Pequim.

Navios-hospitais fazem parte dessa estratégia de soft power: presença simbólica, cooperação humanitária e aproximação institucional, sobretudo em países estratégicos. Ao oferecer serviços de saúde, a China reforça sua imagem internacional e cria canais diretos de interlocução com governos locais.

O Brasil, no entanto, não aderiu formalmente à Nova Rota da Seda. O governo brasileiro optou por manter apenas acordos pontuais de cooperação, evitando vinculação direta ao projeto chinês. Ainda assim, a presença de um navio associado à Rota da Seda em um no país levanta questionamentos sobre os limites dessa cooperação informal.

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